segunda-feira, 26 de junho de 2006

> AMARANTINOS EM VIGÍLIA PELO HOSPITAL DE S. GONÇALO




Centenas de amarantinos concentraram-se nesta noite junto ao Hospital, numa vigília de protesto contra o anunciado encerramento do maternidade daquela unidade de saúde, determinada pelo Governo.
Foi um momento marcado por uma enorme consternação e até de alguma revolta.


domingo, 18 de junho de 2006

> PORTUGUESES A BANHOS (Editorial de "O Jornal de Amarante", de 15 de Junho)

Os economistas dizem que o nosso país está a atravessar uma das piores crises de que há memória.

Atrevo-me a escrever (a seguir vou explicar porquê) que haverá muitos portugueses que sentem menos a crise do que outros. Vem isto a propósito de umas já habituais curtas férias que fiz no Algarve por esta altura do ano, onde, para grande surpresa, encontrei, desta vez, uma enorme legião de turistas portugueses, a maioria, pelo que percebi, originários da Grande Lisboa.

É impressionante a quantidade de portugueses daquela zona do país que por lá andavam, facilmente identificáveis pelas matrículas dos seus automóveis, quase rivalizando, em número, com os “tradicionais” ingleses e alemães que habitualmente escolhem o Algarve para gozar umas prolongadíssimas férias, aproveitando o custo de vida desta região do país, para eles irrisório, mas para a maioria dos lusos, incluindo eu próprio, verdadeiramente astronómico, sobretudo na restauração, cujos preços são padronizados pelas carteiras rechonchudas dos estrangeiros.

A crise parece não ter chegado, portanto, a algumas regiões do país, sobretudo a Lisboa. Aproveitando o feriado de terça-feira (Santo António) e o de quinta-feira, os que habitam as paragens da capital e alguns de outras regiões não se fizeram rogados: meteram três pontes seguidas e lá foram eles em autêntica procissão. Permitam-me agora um parêntesis: quando fazia a viagem, em pleno Alentejo, fiquei impressionado com o tipo de viaturas que, na A2, me ultrapassavam muito para lá dos limites legais de velocidade. Esquecida a péssima educação de muitos senhores bem vestidos e senhoras com “fantásticos” penteados, que por terem um automóvel de alta gama se arrogam de pensar que podem passar por cima de tudo e de todos, inclusive da própria lei, prefiro partilhar com os leitores sobre a maioria dos automóveis que ia observando na auto-estrada. Eram em geral carros de gama média ou alta, principalmente desta, de matrículas recentes, o que só vai de encontro à minha teoria: há regiões do país, sobretudo na capital onde a crise é menos palpável, pelo menos para uns quantos.

Em Lisboa, região que conheço razoavelmente, dezenas de milhares de pessoas trabalham na máquina do Estado, nos inúmeros ministérios, secretarias de Estado, direcções gerais, institutos públicos, tribunais de várias instâncias, Banco de Portugal, Caixa Geral de Depósitos e empresas públicas. São sobretudo essas pessoas que engrossam uma classe média/alta, muito bem remunerada, que se dá ao luxo de passar ao lado da crise, diferenciando-se daqueles que, trabalhando no sector privado, inclusive muita mão-de-obra qualificada, enfrentam cada vez mais vencimentos emagrecidos e, como se tem visto, o espectro do desemprego. Os que têm um emprego bem remunerado na máquina do Estado fazem parte do nicho de pessoas ditas “bem na vida” e que, cada vez mais, se afastam de um outro grupo, mais numeroso, que pertence a uma classe menos favorecida, e que menos margem tinha para resistir uma crise cada vez mais cáustica (...).

Armindo Mendes

sexta-feira, 9 de junho de 2006

> MANTENHAM O CENTRO DE AMARANTE LIVRE DOS AUTOMÓVEIS (Editorial de "O Jornal de Amarante de 8 de Junho de 2006)


O presidente da Câmara defende nesta edição do JA que a autarquia irá respeitar o sentido geral da população amarantina, quando esta for chamada a pronunciar-se sobre as alterações no trânsito da cidade, recentemente aprovadas pelas duas forças da oposição (PSD e Amar Amarante”) no executivo, contrariando a orientação da força que governa o município.
Recorde-se que Armindo Abreu se opõe à abertura ao trânsito da rua 5 de Outubro e da praça da República, enquanto que a oposição sustenta a reabertura do centro histórico à circulação automóvel.
Os amarantinos vão em breve ser chamados a dizer qual das duas soluções preferem, no âmbito do período de consulta pública, que antecede a apreciação da matéria pela Assembleia Municipal.
Denotando um sentido democrático louvável, Armindo Abreu exorta os amarantinos a pronunciarem-se sobre a matéria, prometendo que irá respeitar o sentido geral da população, mesmo se esta preferir de forma clara a reabertura do trânsito.
Armindo Abreu revela desta forma que não será insensível ao veredicto dos amarantinos, rebatendo pela raiz o argumento daqueles que o acusam de ter um atitude prepotente e antidemocrática quando defende o encerramento ao trânsito como a melhor solução para Amarante.
Revejo-me na plenitude na posição do presidente sobre esta matéria. Seria um erro grosseiro reabrir a circulação automóvel na praça da República, que, bairrismos à parte, considero uma das praças mais bonitas do país. Esse recanto do nosso burgo perderia a actual pacatez, que lhe confere uma ambiência muito especial. O arranjo a que foi sujeita há alguns anos foi desenvolvido no pressuposto de que seria uma praça iminentemente pedonal. Injectar-lhe agora centenas de automóveis diários retirar-lhe-ia brilho e afastaria muitas pessoas que gostosamente a desfrutam em agradáveis caminhadas sobretudo nas noites de Verão.
Várias cidades portuguesas com centro histórico – destaco aqui os casos de Guimarães e Viana do Castelo – têm trabalhado no sentido de afastar os automóveis e a poluição por eles gerada dos principais recantos daqueles burgos, que hoje considero dos mais bonitos do país. São duas cidades com centros históricos muito vivos, com um comércio tradicional pujante, que só beneficiou de uma presença cada vez mais assídua de pessoas. Passear a pé nas ruas antigas de Guimarães ou Vizela, desprovidas do cheio a combustíveis e de poluição sonora, é um prazer enorme.
Amarante deve seguir esses exemplos, potenciando as suas magníficas condições. Se o fizer continuaremos a ver crianças a correr na praça, perante o olhar despreocupado dos pais.
Caso contrário, a beleza da praça será esventrada pelo roncar dos automóveis, que rapidamente passarão a estacionar de forma anárquica. A rua 5 de Outubro transformar-se-á num parque de estacionamento caótico. Os transeuntes terão, como acontecia no passado, de fazer autênticas gincanas para conseguir passar entre os automóveis abandonados pelos automobilistas com menor sentido cívico. Os turistas não deixarão de criticar os responsáveis pelo caos.
Amarante perderá encanto…

Armindo Mendes

> Marão vestido de luto (editorial de "O Jornal de Amarante", de 8 de Junho - parte II)


Mais de 250 hectares arderam no domingo na serra do Marão. Dói o coração olhar para a serra, ontem verde, hoje pintada pelo negro tenebroso do fogo. Resta-nos a consolação de o incêndio não ter sido causado por mão criminosa, mas pela explosão de uma aeronave que caiu na serra.
No domingo, as chamas devoraram hectares de floresta, perante o esforço dos meios de combate para ali destacados, incluindo dois aviões e um helicóptero. Mais uma vez os “soldados da paz” provaram o seu denodo à coisa pública, batendo-se com desprendimento e bravura contra condições adversas, sobretudo o calor intenso e o vento forte. Os bombeiros são uma vez mais credores da nossa vénia.
O pesadelo de domingo fez lembrar o grande incêndio dos anos oitenta. A destruição do incêndio deste fogo constituiu um alerta: há que trabalhar no sentido de criar condições para que o mesmo não se volte a repetir, sob pena de o pulmão de Amarante poder um dia sucumbir.

Armindo Mendes

sexta-feira, 2 de junho de 2006

> SALVE-SE A SEGURANÇA SOCIAL

O ministro da Segurança Social anunciou recentemente que dentro de 10 anos o Estado poderá já não reunir condições para assegurar as pensões dos portugueses. Triste notícia esta, mas não surpreendente, pois desde os governos de António Guterres que se prognosticava este desfecho. À data, o então ministro, Ferro Rodrigues, dizia que, se nada fosse feito, em 2017 o sistema de Segurança Social poderia entrar em falência.
Conclui-se então que os governos dos últimos 10 anos foram, no mínimo, irresponsáveis, ao não terem tomado medidas para inverter a derrocada. Não o fizeram, todos os sabemos, para não terem de enfrentar forças corporativistas, com interesses instalados, que sempre manifestariam resistência à perda de direitos adquiridos.
Até que chegou o governo de José Sócrates, com as conhecidas e impopulares medidas para o sector, nomeadamente a muito contestada convergência dos modelos público e privado de aposentações. Na minha opinião, foi uma tardia, mas corajosa e lúcida decisão. Nunca percebi a razão que sustentava a existência em Portugal de “cidadãos de primeira” e “cidadãos de segunda”. Os primeiros - funcionários públicos - podiam até há pouco aposentar-se ao fim de pouco mais de 30 anos de serviço, o que gerava situações quase imorais de vermos pessoas com pouco mais de 50 anos, perfeitamente saudáveis e activas, já aposentadas.
Os segundos - os trabalhadores do sector privado - obrigados a trabalhar até aos 65 anos, o que quer dizer que muitos completavam a sua carreira contributiva com quase 50 anos de descontos. Mas, mais grave, era o facto de os funcionários públicos se aposentarem com 100 por cento do vencimento e os empregados do sector privado apenas receberem uma reforma correspondente a uma percentagem do seu vencimento. Estas e outras distorções, de que poderíamos aqui falar, contribuíram para o estado em que nos encontramos agora. O país não tem condições para suportar estes “luxos”. Melhor seria que a convergência se fizesse em sentido inverso, isto é, que o modelo privado evoluísse em direcção ao modelo público. Porém, como Portugal não é um país rico, tal cenário não passa de uma mera utopia, que muitos sindicalistas bem intencionados insistem em defender. Mas os mesmos sindicalistas e outras forças ditas da esquerda mais radical defendem outras medidas que eu pontualmente subscrevo, sobretudo a necessidade de o governo agir não só junto do chamado cidadão das classes médias, que tão penalizadas têm sido, mas também, e sobretudo, ouse criar medidas que obrigue quem mais tem a mais contribuir. Reporto-me nomeadamente ao sector financeiro e bancário, cujos lucros astronómicos e em permanente crescendo estão longe de ser tributados na medida ajustada às suas possibilidades, conforme já foi criticado em anteriores editoriais. O executivo também tem de encontrar formas de acabar com as pensões principescas, em alguns dos casos atribuídas após poucos anos de serviço, de que auferem políticos - lembre-se o recente caso de Santana Lopes -, gestores de empresas públicas e militares das forças armadas, sobretudo os de patentes mais elevadas. Impõe-se, sem expedientes dilatórios como aqueles a que temos assistido, sobretudo em relação aos políticos e gestores públicos, a imposição imediata de tectos de pensões e salários, para acabar com estas diferenças imorais de vermos um pequeno leque de privilegiados a auferirem de mordomias quase ofensivas, ao passo que milhões de outros portugueses têm de sobreviver com reformas miseráveis.
Vamos ver se este Governo tem força bastante para levar a bom porto este autêntico desígnio nacional. Salve-se a Segurança Social!
PS: Ao chamar aos funcionários públicos “cidadãos de primeira” não o faço com sentido ofensivo, até porque aqueles não têm culpa de outros governos lhes terem atribuído as referidas regalias.
Armindo Mendes
(editorial de "O Jornal de Amarante, de 12 de Janeiro de 2006)

quarta-feira, 31 de maio de 2006

> TODOS AO JUNHO (S. GONÇALO) DE AMARANTE


As Festas do Junho, em Amarante, constituem uma das mais importantes manifestações religiosas e profanas de toda a região Norte.
A devoção ao santo movimenta muitos milhares de pessoas, principalmente de Amarante, mas também de outros concelhos mais ou menos próximos. Ouve-se falar de pessoas que vêm do Sul do país e até do estrangeiro para pagar as suas promessas ou simplesmente participar nas mil e uma manifestações de natureza profana.
Nos dias da festa são impressionantes as manifestações de fé, com os católicos, romeiros ou não, a "invadir" o mosteiro do padroeiro, no gesto de devoção e tributo a S. Gonçalo, ao qual pagam promessas ou lhe dedicam uma oração. As filas de fiéis para simplesmente pôr uma mão na imagem do santo traduzem a importância de um momento de fé.
A DEVOÇÃO

A missa solene é um dos pontos altos. Na igreja do mosteiro, ecoam comoventes cânticos de tributo ao santo. Os fiéis, engalanados, vestem o traje domingueiro. A majestosa procissão é outro momento de grande simbolismo religioso. Como é bonito ver as ruas engalanadas da cidade de Amarante, emolduradas por muitos milhares de pessoas, que ladeiam as artérias aos magotes, mas em profundo silêncio, à passagem das imagens religiosas. As colchas que decoram as varandas do velho burgo e as flores que cobrem e perfumam as calçadas por onde passa a procissão são outros sinais distintivos destas festas centenárias. O lançamento de cravos da varanda dos reis e a mensagem à cidade do pároco de S. Gonçalo é outro momento recheado de simbolismo, porventura sem paralelo no país, muito apreciado pelos amarantinos e forasteiros que se concentram no largo.

A CULTURA DE UM POVO
Mas o Junho amarantino é também uma enorme manifestação da cultura popular mais genuína, consubstanciada no enfoque dado aos bombos e no desfile etnográfico que evidencia as características mais simples e rurais das freguesias amarantinas.
É todos os anos assim. O povo sai à rua e revê-se nas suas festas. O programa tem mantido uma matriz comum ao longo dos anos, com pequenos ajustamentos, que não comprometem a tradição.
As festas são da família. Impelidos pelos acordes cintilantes dos instrumentos das filarmónicas da terra, pais, mães e filhos deambulam, em vai vem, por entre a multidão, divertindo-se nos carrinhos de choque, comendo uma fartura, provando o algodão doce ou experimentando uma ou outra tasca da cidade, que servem os petiscos mais apetitosos e os verdes tintos mais atrevidos do Norte de Portugal. Muitas famílias trazem os seus farnéis e aproveitam-nos para, enquanto enchem as barrigas, confraternizar nas frescas da florestal. As crianças saltitam de euforia, à procura daquele brinquedo que vislumbraram naquela barraca chinesa, agora tão comuns na nossa festa. O menino chorou por aquele carro da polícia multicolor e barulhento, enquanto a menina suspirou pela boneca de vestido cor-de-rosa faustoso. Os pais lá têm de largar os cordões à bolsa e cumprir a tradição de pelo Junho, oferecer um brinquedo aos filhos.
Os jovens, principalmente os rapazes, folgam com as brincadeiras em torno dos famosos "S. Gonçalos", os doces de forma fálica, alguns de dimensões ousadas, que oferecem às meninas. As mais acanhadas, cabisbaixas, até coram, mas as mais fogosas agradecem o presente e retribuem com o sorriso atrevido e desafiador.
DIAS DE FOLIA

As alvoradas também são especiais. Os grupos de bombos, hirtos pela tradição, marcham na velha urbe de ruas estreitas e íngremes, acordando ritmadamente os que, fadigados pelas noitadas, ainda dormem, como que desafiando os amarantinos para mais um dia de folia.
À noite, todos se aglomeram junto às pontes. O momento vai chegar... O fogo junto ao rio é uma delícia para olhos, que todos os anos fantasiam com o brilho cruzado proporcionado pelo espelho do Tâmega. Quando o fogo começa, os corações batem mais forte as pupilas dilatam. Os mais pequenos dão as mãos aos pais e erguem a cabeça em sinal de espanto, rendidos ao cintilar barulhento do fogo, embalado pela melodia musical que brota de um potente sistema de som, hoje moda m cada festa que se preze.
Os espectáculos das noitadas são sempre muito animados. A organização tem escolhido artistas de renome nacional, ditos populares, que agradam ao povo mais simples, que corresponde com a presença maciça e entusiástica, comprovando que Amarante continua a ser uma terra onde predomina uma cultura pouco urbanizada.
As festas são assim e o povo gosta.
Vamos todos ao Junho.
Armindo Mendes

quarta-feira, 24 de maio de 2006

“O senhor é um homem com sorte”- dizia eu há dias ao meu sogro (editorial de "O Jornal de Amarante, edição de 4 de Maio).

Tal comentário ocorria recentemente à hora do jantar, quando visionávamos um noticiário televisivo no qual eram anunciadas novas mexidas nas regras de atribuição das reformas.

O meu sogro reformou-se merecidamente, após uma vida dura de trabalho, com a bonita idade de 65 anos. Goza agora a merecida tranquilidade, desfrutando dos prazeres que o tempo livre lhe proporciona.

É um homem de sorte. Nós, os que ainda fazemos descontos, somos quase diariamente confrontados com as iluminadas intenções do nosso Governo, tão preocupado anda ele em arranjar maneira dos nos vir buscar mais uns cobres.

Diz-se em S. Bento, e bem, que a sustentabilidade da segurança social está posta em causa e, por isso, é preciso pôr a rapaziada a trabalhar mais anos, até muito perto dos 70.

Diz-se também em S. Bento que se impõe a reforma da Segurança Social. Também concordo. Começo a discordar é do caminho para lá se chegar, mais uma vez penalizando os que menos têm, os que, quando chegar a idade, mais dependerão da dita reforma, pois os magros salários não dão azo a grandes poupanças. Será possível que nos gabinetes alcatifados dos assessores de Vieira da Silva ninguém se lembra que Portugal não é só as classes médias e altas que habitam no litoral, geralmente as mais bem remuneradas.

O nosso país é onde as assimetrias sociais são mais acentuadas em toda a União Europeia. O fosso entre os mais ricos e os mais pobres está cada vez mais fundo e os sucessivos governos têm-se manifestado incapazes de suster esta tendência. Em muitos sectores da sociedade portuguesa o diagnóstico está feito e são apontadas soluções mais ou menos consensuais. Clama-se, justamente, por reformas estruturais que proporcionem condições para a melhoria da produtividade, mas sem comprometer aquela que é a mais bonita bandeira da nossa velha Europa - o Estado Social.

Defendo que a reforma da Segurança Social portuguesa deveria seguir outros caminhos, que não os agora preconizados pelo Governo, acabando com verdadeiras injustiças, que nos fazem clamar pela lucidez dos que nos governam, sejam eles do partido A ou do partido B. É lugar comum dizer-se que são essas arbitrariedades que comprometem a sustentabilidade da segurança social de um país tão desequilibrado como o nosso. Por exemplo, este governo que se diz corajoso por avançar com as ditas reformas estruturais – em alguns casos até o tem conseguido com êxito – poderia agora manifestar força bastante para aplicar novas regras para os que mais têm. Em primeiro lugar, sugiro que, por decreto puro e duro, como tem feito noutros casos, pusesse termo às reformas daqueles que, por terem desempenhado várias funções no Estado e em empresas públicas, acumulam inúmeras e principescas pensões ou acabando em definitivo, sem paliativos retóricos, com as benesses atribuídas aos titulares de cargos políticos, que ao fim de alguns anos, ainda a léguas dos agora saudosos 65 anos, desfrutam do el dorado que as precoces pensões do Estado lhes proporcionam. Seria interessante aplicar também a esses as famosas regras baseadas no aumento da esperança de vida.

Inspirado nas notícias de que nos últimos meses dispararam as reformas com valores superiores a quatro mil euros - na maioria dos casos são antigos gestores de organismos estatais ou militares -, também sugiro ao famoso ministro Vieira da Silva que se fixasse um tecto de reforma em três mil euros, um valor capaz de proporcionar conforto a qualquer cidadão, tendo até em conta que os cidadãos com descontos suficientes para ter uma reforma com aquela grandeza teriam tido, com certeza, na sua carreira contributiva, rendimentos do trabalho mais do que suficientes para financiar esquemas complementares de reforma, como os famosos PPR e outros produtos financeiros, aos quais recorrem hoje muitos cidadãos de classes menos abastadas.

Estes passos, que consubstanciariam a mais elementar subsidiariedade, libertariam verbas para, com grande generosidade, o governo poder reforçar as pensões dos que menos recebem.

Seríamos então capazes de, a plenos pulmões, elogiar a coragem reformista do governo, que até hoje, no Caso da Segurança Social, se tem manifestado sobretudo junto dos que menos têm.

domingo, 21 de maio de 2006

> "TRAGÉDIA NO IP4" Bebé sobrevive a acidente que mata pai e mãe - (fotos Armindo Mendes - direitos reservados)



Estas fotos foram por mim captadas, há cerca de três anos, naquele que foi um dos mais dramáticos momentos a que assisti em toda a carreira profissional.
Esta bebé que se vê no colo do comandante dos Bombeiros de Amarante tinha acabado de, "milagrosamente", sobreviver a um brutal cidente no IP4, perto de Amarante, no qual tinham morrido o pai e a mãe.
O carro onde seguia a família ficou completamente destruído, mas a bebé, de Carrazeda de Ansiães, não sofreu um único arranhão. Terá sido milagre? Ainda hoje transporto essa dúvida no meu peito.
Estas minhas fotos correram o mundo e foram utilizadas em várias campanhas de prevenção rodoviária.
Um dia destes contarei neste blog as circunstâncias e as emoções avassaladoras que rodearam este acidente, cuja vivência jornalística constituiu um dos mais intensos momentos por mim vividos atrás de uma câmara fotográfica, só comparável ao que senti no rescaldo da tragédia da derrocada da ponte de Entre-os-Rios.