quarta-feira, 23 de agosto de 2006

> O FASCÍNIO DO COMBOIO


A recente visita a Amarante de dirigentes de “Os Verdes” para defender a Linha do Tâmega recolocou na agenda actual este importante dossier.
Faço parte daquele grupo de portugueses que têm um carinho especial pelo caminho de ferro. Muitos amarantinos, de todas as idades, cresceram habituados a ver passar o comboio, um meio de transporte outrora importante na economia da região, mas também algo que criava em cada criança um certo misticismo.

Quem de nós, na tenra infância, não sonhava com a primeira viagem de comboio? Quem de nós não teve um dia como brinquedo uma velha máquina a vapor que nos fazia lembrar os filmes de cowboys que passavam na TV ainda a preto e branco?
Ainda hoje quando vejo passar o comboio, sobretudo as grandes composições que ainda atravessam o país, sinto uma emoção especial. O meu filho, um menino de cinco anos, curiosamente herdeiro de velhos hábitos do seu progenitor, não se cansa de me pedir para o levar a ver os comboios. Procuro corresponder e até já lhe proporcionei o seu baptismo de viajante em caminho de ferro, além de uma visita a um museu ferroviário, em Lousado, Famalicão, dois momentos vividos com enorme intensidade pelo pai e pelo filho, que jamais haveremos ambos de esquecer.
Infelizmente, para muitas crianças, principalmente as que moram em localidades onde já não passam comboios, esse meio de transporte não passa já de algo a que só acedem por via da TV ou do cinema.

Há décadas que o comboio foi perdendo importância, sobretudo à medida que foi sendo ultrapassado pelo automóvel e pelo autocarro. Muitos dirão que se tratou de uma evolução natural que conduziu o caminho-de-ferro à extinção em várias regiões do país.
Eu tenho uma opinião diferente. Penso que a decadência do comboio em Portugal se explica não só por razões de concorrência do automóvel, mas também devido ao desinvestimento crónico de que foi padecendo o caminho-de-ferro no nosso país.

Enquanto o Estado investia e bem na modernização da rede viária, um pouco por todo o território, o mesmo não se passava com as linhas-férreas e outras infra-estruturas de apoio, que durante décadas se mantiveram inalteráveis. Enquanto as estradas se foram tornando menos sinuosas, mais largas e com melhor piso, correspondendo ao número crescente de automóveis, a maioria das linhas preservavam as mesmas características, completamente obsoletas. Os traçados anacrónicos, como se vê no caso da Linha do Tâmega, são os mesmos do início do século passado, sinuosos, lentos e desconfortáveis. O material circulante manteve-se durante anos a fio, não acompanhando a evolução tecnológica que se foi fazendo também neste meio de transporte. As estações e apeadeiros também pararam no tempo. As viagens de comboio, que há cerca de um século eram rápidas e confortáveis se comparadas com as viagens feitas com automóveis ou camionetas de passageiros por esburacadas e serpenteantes estradas da época, tornaram-se demasiado lentas.
O comboio em Portugal, com excepção das áreas metropolitanas, não acompanhou a evolução e começou a definhar. As pessoas começaram a preferir as viagens em autocarros mais modernos e confortáveis, que percorriam as novas estradas, que entretanto foram sendo construídas. E o comboio foi morrendo aos poucos. Sem passageiros, o seu fim era inevitável, como ocorreu com o bonito troço da Linha do Tâmega entre Amarante e Arco de Baúlhe.
De Amarante à Livração ainda circula uma automotora, quase sempre com um número de passageiros insuficiente que justifique a sua existência. Fala-se que a CP quer acabar com essa ligação, o que se compreende devido à sua reduzida utilização.

Coloca-se hoje a questão de se justificar ou não criar condições para que a linha se mantenha em funcionamento, o que poderá ocorrer, eventualmente, se as câmaras de Amarante e Marco de Canaveses se interessarem pelo projecto, procurando potenciá-lo sob ponto de vista turístico. Seria interessante se tal viesse a ocorrer, mas receio que essa possibilidade não passe do papel, atendendo ao forte investimento que as duas autarquias poderiam ser obrigadas a suportar. Talvez uma parceria público-privada com investidores turísticos pudesse ajudar.
Quanto ao troço até Arco de Baúlhe, desactivado há muitos anos, que alguns, poucos, ainda acreditam poder um dia ser reactivado, creio que só a utopia, embora bem intencionada, poderá suportar tal pretensão. A única utilização se que vislumbraria para o troço seria de âmbito turístico, mas mesmo essa obrigaria a um enorme investimento para garantir as condições de circulação, atendendo à degradação quase completa da velha linha. Quanto à utilização comercial, essa estaria comprometida ao fracasso. Na zona de Basto vive cada vez menos gente e a que resta está hoje servida de estradas que lhe garantem um acesso mais rápido a Amarante e a outras cidades próximas.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

> A ANGÚSTIA DOS FOGOS

A angústia. O ministro da Administração Interna, António Costa, reconheceu no domingo as dificuldades do esquema de prevenção dos incêndios.
Estas declarações do governante, proferidas horas depois de terem sido anunciados os números negros dos incêndios do passado fim-de-semana, acabam por surpreender, sobretudo porque vieram de alguém que tem procurado transmitir para a opinião pública uma imagem de dinamismo e eficácia.
Não se interprete esta minha introdução como uma crítica à actuação do ministro na questão dos incêndios, a qual continuo a achar ser bem mais eficiente do que a de outros governantes no passado recente. António Costa é um ministro competente. É um homem rigoroso e exigente. Acontece, porém, que a questão dos incêndios não se resolve num ano, como se tem comprovado, apesar dos enormes progressos conseguidos recentemente, sobretudo ao nível do combate e da primeira intervenção. Pelo que me têm dito pessoas conhecedoras na área do combate aos fogos, os meios este ano estão mais coordenados e isso traduz-se numa mais rápida e eficaz intervenção, evitando que os fogos atinjam maiores proporções. Em Amarante essa tendência tem-se confirmado, como se observou no passado fim-de-semana, com centenas de bombeiros mobilizados no terreno.
Mas este esforço não é suficiente. Aqui como no resto do país, falta melhorar a componente da prevenção, justamente aquela que mais eficaz se pode tornar para obviar ao risco de incêndio sempre subjacente às cada vez mais altas temperaturas que se fazem sentir à passagem de cada Verão.
O ministro alertou, em bem, para o longo caminho a percorrer na limpeza das nossas florestas e para a falta de ordenamento florestal, que tantas vezes propicia a construção de habitações no meio das matas.
Mas António Costa também sabe que o problema é mais complexo. Não é preciso ser-se sociólogo ou economista para se perceber porque ardem hoje mais floresta do que no passado. O problema tem a ver com o modelo de desenvolvimento que o país adoptou há algumas décadas, que conduziu à desertificação do interior, onde ardem as maiores áreas de floresta. Não havendo ali gente a morar, não há quem cuide da manutenção das matas. Antigamente havia gente nas aldeias. Essas pessoas zelavam pela limpeza dos montes, porque dali tiravam o seu sustento. Dali tiravam a lenha para as suas lareiras e dali também tiravam os matos para melhor aconchegarem o seu gado, que dormia nas lojas das suas casas.
As pessoas habitavam no interior e eram elas, tantas vezes, as primeiras a mobilizar-se numa primeira intervenção. Hoje, no interior não mora quase ninguém. Ali ficaram apenas os velhos, que vêem agora as suas casas a serem engolidas pelas chamas.
As sucessivas medidas para esvaziar o interior de serviços públicos só estão a contribuir para acentuar a desertificação. As pessoas não querem morar onde não haja serviços de saúde qualidade com o mínimo de qualidade. Não querem morar onde os seus filhos têm de percorrer dezenas de quilómetros para frequentar a escola.
O combate aos fogos também se faz através do combate à desertificação. E aí, as políticas globais deste e de outros governos não estão isentos de responsabilidades.
Pouco significado terão um super ministro, de reconhecidas qualidades, e os muitos milhões de euros que todos os anos se gasta no combate musculado aos fogos.
A defesa da nossa floresta também se faz aumentando a fiscalização, colocando as forças policiais e os militares a patrulhar as zonas de maior risco. Mas também se impõe a punição exemplar dos que deitam fogo às nossas matas e o reforço do investimento em equipas de vigilância e de primeira intervenção.
O diagnóstico está feito há muito. As soluções também são consensualmente aceites e algumas já estarão em marcha. Tardam os resultados.

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

> AMARANTE É CULTURA


A cidade e o concelho de Amarante distinguem-se pela positiva dos demais concelhos da região, quando se faz uma avaliação das actividades desenvolvidas por estas paragens.
Apesar da subjectividade desta afirmação, obviamente passível de contestação por outrem, assumo de forma convicta esta minha avaliação, fundada em dados objectivos que mais à frente comentarei.
Penso, por vezes, que muitos amarantinos não se dão conta da riqueza cultural da terra onde vivem ou nasceram.
Muitos saberão que esta é a terra de Pascoaes e Amadeo, mas outros, menos zelosos, apressar-se-ão a dizer que essas são figuras do passado e que agora, como já ouvi dizer algures, Amarante parou no tempo e já não terá o encanto de outras épocas.
Fico triste quando ouço essas afirmações... Amarante, no todo social, cultural e monumental, não merece isso.
Se é certo que nem tudo estará bem, devem os amarantinos atentar naquilo que os distingue na região. Não tenhamos vergonha de nos compararmos com terras mais ou menos próximas. Façamo-lo de peito aberto, na certeza de que não ficaremos mal na fotografia.
Haverá cidades por estas paragens, de idêntica dimensão, com tanta riqueza cultural? Tenho a certeza que não. Ora vejamos alguns indicadores que sustentarão esta minha afirmação. Que cidades próximas têm um grupo de teatro com a qualidade do T’Amaranto? Certamente poucas terão esse privilégio. Mas se ao teatro acrescentarmos a Orquestra do Norte, aqui sedeada e que abundantemente nos brinda com magníficos concertos? Esta é a única orquestra regional em toda a região e trabalha diariamente em Amarante, com executantes do que de melhor há no nosso país. E qual é a cidade da região que tem um museu como o nosso, recheado de um espólio tão rico e variado? Qual é a cidade da região que organiza concursos literários e de pintura como os dedicados a Teixeira de Pascoaes e Amadeo Souza-Cardoso, respectivamente? E já agora, qual é a cidade que tem uma biblioteca municipal a funcionar num antigo convento objecto de uma recuperação arquitectónica notável. Ou ainda, que terra próxima tem uma casa da cultura também albergada num antigo edifício recuperado com mestria e bom gosto?
Poderíamos aqui continuar a enunciar situações que afirmam Amarante como terra de cultura, também muito grata ao labor de associações de maior ou menor dimensão que promovem actividades culturais mais ou menos eruditas, com maior ou menor pendor tradicional. Estou a lembrar-me das duas bandas de música, de vários agrupamentos folclóricos, escolas de música, de dança e de outras artes. Ou ainda, porque o nosso passado também é cultura, que cidade das redondezas tem uma praça tão monumental e tão bem arranjada como a nossa, frente à Igreja de S. Gonçalo, paredes meias com uma ponte de rude granito, mas quase tão bela como o Tâmega que sob si serpenteia.
Então e as nossas festas de S. Gonçalo, tão apreciadas pelos forasteiros e tão fiéis às tradições dos nossos ancestrais, também não são cultura, a cultura genuína de um povo humilde e trabalhador? E passear nas margens do Tâmega, numa noite de Verão, enquanto conversamos com um amigo, degustamos um doce conventual e olhamos o Covelo, também não é cultura? Haverá nas redondezas um rio, ora rebelde, ora dócil, que esventra uma cidade em granito?
Alguns estarão a ler este escrito e achá-lo-ão até algo piroso, por estar, num bairrismo exacerbado, a idolatrar a terra de Amarante. Não me incomodam esses impropérios. Fico mais indignado quando ouço amarantinos a dizer mal da sua terra, só porque, pontualmente, não gostarão deste ou daquele político, desta ou daquela decisão, ou porque acham que a construção desenfreada em cimento armado, tão cara a cidades próximas, é sinónimo de desenvolvimento.
Bem sei que nem tudo está bem e que haverá aspectos a melhorar. Por exemplo, falta uma verdadeira sala de espectáculos.
Mas a insatisfação sadia é mote para, fazendo das fraquezas forças, potenciarmos esta Amarante tão rica.
Gosto de Amarante assim. É muito bela esta cidade com as suas ruas antigas estreitas e íngremes, este concelho plantado no sopé do Marão imponente.
Bem-haja aos que procuram, a cada dia, melhorar Amarante, promovendo acções que acariciam a alma da Princesa do Tâmega. Sim, as diferentes formas de cultura são um bálsamo para a alma dos mortais.
Façam, não vacilem. Apesar dos recursos serem parcos, continuem a dar-nos teatro, música de qualidade, ópera, exposições, animação de rua, concertos com artistas de qualidade, despiques de bombos, arruados de filarmónicas, cortejos etnográficos e muito, muito mais…
Dêem-nos condições para Amarante continuar a ser igual a si própria, honrando os vultos do passado, uma terra que se orgulha de ser especial.

domingo, 30 de julho de 2006

> O ERRO DE ISRAEL

O mundo assiste há semanas a mais uma guerra em directo pela televisão.
Mais uma vez é no Médio Oriente que ecoa o rosnar dos canhões e mísseis que matam diariamente dezenas de inocentes. Quando vejo crianças vítimas da guerra o meu coração estremece. Por vezes, prefiro desligar a televisão…
Os beligerantes - o Estado de Israel e o grupo extremista xiita Hezbollah - violam constantemente os direitos humanos, procurando fazer valer, pela força das armas, visões diametralmente opostas do mesmo problema.
Desta vez foi o rapto de um militar Israelita que rastilhou uma onda de violência sem fim à vista.
A questão do Médio Oriente é antiga e complexa, entroncando sobretudo em diferenças religiosas profundas, porque de ambos os lados – Judeu e Islâmico – vão prevalecendo as visões mais fundamentalistas.
Não vamos escalpelizar aqui como tudo começou, porque se o fizéssemos teríamos de recuar uns dois mil anos, ou talvez mais.
Numa visão, que admito ser demasiado simplista, a questão reside no facto de a população árabe não aceitar o Estado de Israel, cuja formação, nos anos 40, foi traçada a régua e esquadro, sem acautelar uma visão geoestratégica daquela complexa zona do globo.
O povo judeu, que respeito e admiro, tem direito a defender-se dos sucessivos actos terroristas perpetrados por grupos organizados como o Hezbollah e o Hamas, que matam israelitas inocentes.
Só que, como estado democrático que é suposto respeitar os direitos humanos, Israel fá-lo quase sempre de forma desproporcionada, como se tem visto na Palestina e no Sul do Líbano, deitando mãos a um poderio militar inusitado, sempre com o apoio dos Estados Unidos.
Não se admite que um Estado (Israel) ouse invadir outro, igualmente soberano (Líbano), supostamente para combater um grupo terrorista, e destrua importantes infra-estruturas desse país, que, em primeiríssima instância, só prejudicará a população civil inocente, hoje a braços com uma crise humanitária. Mais grave ainda, é a possibilidade desta intervenção poder desencadear a intervenção de outras potências regionais.
Muitos são na Europa, grupo onde me incluo, que defendem um caminho diferente para a resolução do problema. É pela via diplomática que se deve caminhar, simplesmente porque a intervenção militar, como se vê no Iraque, só gera violência e acentua ódios, fertilizando condições para o recrudescimento de organizações terroristas islâmicas um pouco por todo o mundo que se rege pelo Alcorão.
Será que Israel acredita que vai conseguir eliminar o Hezbollah com esta intervenção militar e assegurar a sua segurança interna? Se o faz estará a incorrer num erro estratégico profundo, tão grave quanto a invasão do Iraque perpetrada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, que só veio acicatar ódios religiosos e étnicos, descambando numa espiral de violência inédita naquele país.
No Líbano, como recorrentemente ocorre na Palestina, os bombardeamentos e os carros de combate matam inocentes e fragilizam uma sociedade encrostada de assimetrias sociais que se vão acentuar. O número de pobres vai crescer e estes constituirão alvo fácil para o recrutamento de organizações terroristas, incluindo fundamentalistas da Al-Qaeda, que explorarão os sentimentos de revolta entre os povos islâmicos.
Ao mesmo tempo fragilizou-se de forma profunda a jovem democracia libanesa, que terá dificuldades acrescidas para combater o terrorismo que grassa no seu próprio território. Não nos admiremos se o Hezbollah ganhar as próximas eleições naquele país, como aconteceu com o Hamas na Palestina. Depois, no mundo ocidental, vamos ficar todos espantados com o resultado e apressamo-nos a não dialogar com um governo controlado por uma organização extremista, mas ratificado pelo sufrágio popular? Como é que se vai sair disto? O que se passa na Palestina, onde falta, na óptica ocidental, um interlocutor válido, não era já um sinal preocupante?
Já é tempo de, após tantos erros cometidos, a comunidade internacional, sobretudo esta administração norte-americana e seus aliados britânicos, perceberem que os problemas naquela região não se resolvem pela via militar. Tanto mais que, a jusante, até ao Estados Unidos, internamente, poderão ser vítimas destas políticas, sabido que é o ódio que várias organizações terroristas espalhadas pelo um islâmico nutrem por aquela super potência, que consideram ser a principal aliada de Israel.
Desta crise internacional ressalta ainda a fragilidade da política externa da União Europeia. Mais uma vez, os europeus não têm sido capazes de ter uma só voz, dando uma imagem de fragilidade ao mundo, que enfraquece a sua força negocial e capacidade de influência neste e noutros conflitos.

terça-feira, 11 de julho de 2006

> SELECÇÃO - "No melhor pano cai a nódoa"

Será verdade?

Ouvi há instantes numa estação de rádio que a Federação Portuguesa de Futebol ponderava pedir isenção de IRS para os prémios dos jogadores relativos à participação na Campeonato do Mundo de Futebol na Alemanha.

O povo diz que, às vezes, “no melhor pano cai a nódoa”. É exactamente isto que se está a passar com esta patetice de pedir isenção de pagamento de impostos, logo numa altura em que o gastador Estado pede sacrifícios aos comuns dos mortais.

Depois de uma prestação muito meritória num campeonato que encheu todos os portugueses de orgulho, vêm agora os jogadores, por intermédio da FPF, pedir algo moralmente inadmissível.

Coitados das nossas "estrelas". Devem viver com dificuldades e os prémios chorudos que angariaram na Germânia devem ser fundamentais para fazer face a despesas de primeira necessidade…

Pensarão eles que os feitos desportivos na Alemanha lhes atribuirá o título de cidadãos de primeira, quase comparáveis a uma espécie de instituição de utilidade pública.
Então e os outros campeões europeus e mundiais deste país também têm isenção do IRS?

Será que o orgulho nacional que tanto invocavam os nossos valoroso craques no fim dos jogos e que tanto nos comovia não era assim tão profundo? Face a esta atitude, de um materialismo inusitado, começo a ficar desconfiado com tanto amor pátrio.

Só espero que o nosso Governo, sempre tão implacável para com os contribuintes ditos normais, não cometa agora o erro de sucumbir a um pedido inadmissível, que me apetece adjectivar de forma ainda mais dura.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

> EDITORIAL DE "O JORNAL DE AMARANTE", de 6 de Julho

Amarante perdeu!
A reunião do ministro da Saúde com o presidente da Câmara acabou por ditar aquilo que já se esperava: a “morte” anunciada da maternidade de Amarante.Correia de Campos foi intransigente na questão, de nada valendo os protestos dos amarantinos.
O governante informou Armindo Abreu que as urgências médico-cirúrgicas vão manter-se abertas entre as 8h00 e as 22h00 e que o hospital vai perder a sua autonomia, passando a funcionar de forma articulada com o de Penafiel. Foi também prometido que um estudo em curso à reorganização funcional do Hospital de Amarante poderá conduzir à realização de obras, potenciando a sua vocação para as cirurgias de ambulatório.
No meio de tantas promessas, apetece-me dizer que não há, de todo, razões para sorrir, tanto mais que a única garantia que há é a palavra do ministro, numa altura em que ser-se governante é algo cada vez mais efémero. Sobre a questão da maternidade, mantenho a opinião: acho que os nossos governantes andam a brincar com os nossos impostos. Como é possível gastar-se, há cerca de três anos, cerca de 700 mil euros para se renovar aquela valência e agora simplesmente decide-se fechá-la. Não sei de quem é a culpa, se dos responsáveis do anterior governo que decidiram fazer as obras sem analisar tecnicamente se a continuação da valência se justificava, se dos actuais governantes que, à revelia dos investimentos realizados, entenderam pôr termo à maternidade amarantina.
Como português que paga os seus impostos, sinto-me insultado com a flagrante falta de coerência nas políticas dos governos que se sucedem, que tantas vezes, de forma irresponsável, redunda em situações como esta. Quanto às urgências, mantenho que a decisão se justifica por exclusivas razões economicistas. É certo que, durante a noite, se estava a gastar muito dinheiro numa equipa de profissionais que atendia um número muito pequeno de doentes. Mas não menos certo, é que encaro esses encargos como custos sociais que a tutela tinha a obrigação de continuar a suportar, porque os poucos que ainda vivem nestas paragens do interior também têm direito a serviços de saúde que nos garantam alguma tranquilidade.
Sei que estas minhas palavras são uma espécie de “pregação aos peixes” numa sociedade cada vez mais resignada à frieza dos números. Eles, os poderosos da capital, não estão preocupados connosco, porque são atendidos com todos os cuidados, de preferência em clínicas privadas. Se vivessem em Rebordelo, em Salvador do Monte ou noutra qualquer freguesia “longínqua” teriam certamente uma opinião diferente, porque, confrontados com as estradas serpenteantes que por cá existem constatariam que a sua saúde e a da sua família poderia perigar com decisões políticas tão tecnocratas como as que têm vindo a ser tomadas.
Para um reformado idoso, oriundo das zonas mais afastadas do concelho, que se sinta indisposto a meio da noite, uma deslocação ao hospital de Penafiel poderá ser demasiado onerosa ou, nas situações mais graves, mesmo de ambulância, demasiado demorada, ao ponto de fazer perigar a sua vida. Já em relação aos anúncios de obras no hospital, apetece-me lembrar que “promessas leva-as o vento”. E as aragens daquelas bandas não são bonançosas.
Estou absolutamente descrente nesse cenário, porque irá contra a recorrente estratégia da tutela, que tem travado muitos investimentos que estavam prometidos em várias áreas. Receio que tenha sido apenas para calar os que por cá são mais crédulos nos ditames do statu quo.Há dias, um homem idoso, sentado à mesa do café, que ouvia na TV o anúncio do encerramento do Serviço de Atendimento Permanente de uma pequena vila do interior alentejano, comentava com o seu colega de mesa: “O melhor era entregar estas terras a Espanha e acabavam as dores cabeça dos tipos de Lisboa. Assim, quem quiser continuar português vai viver para o litoral, ou, por uma questão de masoquismo, fica na sua terra à espera de morrer”.
Este comentário, que tinha sido feito numa linguagem mais terra a terra do que a por mim aqui reproduzida, que incluía também alguns impropérios aos políticos, roça o exagero, mas não deixa de transparecer a sensibilidade popular de um povo lusitano de parca formação, mas suficientemente lúcido para perceber o que o rodeia.
Muitos idosos, estes de Amarante, também se manifestaram na vigília realizada na semana passada junto ao hospital. Viam-se lá muitas caras conhecidas, mas predominavam os ditos cidadãos anónimos, sobretudo os que, como o alentejano, têm dificuldades em aceitar que lhes seja retirado do hospital da sua terra um bem precioso: o direito à assistência na saúde.
O presidente da Câmara disse aos colegas de vereação que vai estar atento e pressionar o Ministério da Saúde no sentido de cumprir o prometido relativamente à reformulação do modelos funcional do hospital. Temos razões fortes para acreditar que Armindo Abreu terá uma legitimidade acrescida para o fazer, simplesmente porque a sua postura até hoje neste processo, nada dada a acções mais extremadas contra o despacho do ministro, deverá ser credora de uma acrescida capacidade de influência junto de Correia de Campos.
Armindo Mendes

sábado, 1 de julho de 2006

> CONCERTO DOS SANTOS E PECADORES (fotos: Armindo Mendes > direitos reservados)




> FELGUEIRAS MAIS PRÓXIMA DO PORTO EM AUTO-ESTRADA SEM PORTAGEM




Decorreu ontem à tarde, no limite dos concelhos de Paços de Ferreira e Lousada, a inauguração de mais um troço da A42 (antigo IC25).
Este troço liga em auto-estrada sem portagem a cidade de Paços de Ferreira à EN 106 (antigo nó de Ribas do IC 25). Faltam apenas poucos quilómetros para esta auto-estrada ligar com a A11, nas proximidades de Lousada.
Será então possível aos felgueirenses chegar ao nó de Lousada da A11 e virar em direcção à A41, que liga ao Porto, passando por Paços de Ferreira. A grande vantagem é que a A42 é uma SCUT, isto é, sem cuto para o utilizador, o que é optimo, tendo em conta os preços elevadíssimos praticados na A11 e na A4.
Face ao referido, foi pena que na cerimónia não tivessem estado presentes autarcas de Felgueiras, pontificando os presidentes de Paços, Lousada e Penafiel, além da governadora civil do Porto.

segunda-feira, 26 de junho de 2006

> AMARANTINOS EM VIGÍLIA PELO HOSPITAL DE S. GONÇALO




Centenas de amarantinos concentraram-se nesta noite junto ao Hospital, numa vigília de protesto contra o anunciado encerramento do maternidade daquela unidade de saúde, determinada pelo Governo.
Foi um momento marcado por uma enorme consternação e até de alguma revolta.


domingo, 18 de junho de 2006

> PORTUGUESES A BANHOS (Editorial de "O Jornal de Amarante", de 15 de Junho)

Os economistas dizem que o nosso país está a atravessar uma das piores crises de que há memória.

Atrevo-me a escrever (a seguir vou explicar porquê) que haverá muitos portugueses que sentem menos a crise do que outros. Vem isto a propósito de umas já habituais curtas férias que fiz no Algarve por esta altura do ano, onde, para grande surpresa, encontrei, desta vez, uma enorme legião de turistas portugueses, a maioria, pelo que percebi, originários da Grande Lisboa.

É impressionante a quantidade de portugueses daquela zona do país que por lá andavam, facilmente identificáveis pelas matrículas dos seus automóveis, quase rivalizando, em número, com os “tradicionais” ingleses e alemães que habitualmente escolhem o Algarve para gozar umas prolongadíssimas férias, aproveitando o custo de vida desta região do país, para eles irrisório, mas para a maioria dos lusos, incluindo eu próprio, verdadeiramente astronómico, sobretudo na restauração, cujos preços são padronizados pelas carteiras rechonchudas dos estrangeiros.

A crise parece não ter chegado, portanto, a algumas regiões do país, sobretudo a Lisboa. Aproveitando o feriado de terça-feira (Santo António) e o de quinta-feira, os que habitam as paragens da capital e alguns de outras regiões não se fizeram rogados: meteram três pontes seguidas e lá foram eles em autêntica procissão. Permitam-me agora um parêntesis: quando fazia a viagem, em pleno Alentejo, fiquei impressionado com o tipo de viaturas que, na A2, me ultrapassavam muito para lá dos limites legais de velocidade. Esquecida a péssima educação de muitos senhores bem vestidos e senhoras com “fantásticos” penteados, que por terem um automóvel de alta gama se arrogam de pensar que podem passar por cima de tudo e de todos, inclusive da própria lei, prefiro partilhar com os leitores sobre a maioria dos automóveis que ia observando na auto-estrada. Eram em geral carros de gama média ou alta, principalmente desta, de matrículas recentes, o que só vai de encontro à minha teoria: há regiões do país, sobretudo na capital onde a crise é menos palpável, pelo menos para uns quantos.

Em Lisboa, região que conheço razoavelmente, dezenas de milhares de pessoas trabalham na máquina do Estado, nos inúmeros ministérios, secretarias de Estado, direcções gerais, institutos públicos, tribunais de várias instâncias, Banco de Portugal, Caixa Geral de Depósitos e empresas públicas. São sobretudo essas pessoas que engrossam uma classe média/alta, muito bem remunerada, que se dá ao luxo de passar ao lado da crise, diferenciando-se daqueles que, trabalhando no sector privado, inclusive muita mão-de-obra qualificada, enfrentam cada vez mais vencimentos emagrecidos e, como se tem visto, o espectro do desemprego. Os que têm um emprego bem remunerado na máquina do Estado fazem parte do nicho de pessoas ditas “bem na vida” e que, cada vez mais, se afastam de um outro grupo, mais numeroso, que pertence a uma classe menos favorecida, e que menos margem tinha para resistir uma crise cada vez mais cáustica (...).

Armindo Mendes

sexta-feira, 9 de junho de 2006

> MANTENHAM O CENTRO DE AMARANTE LIVRE DOS AUTOMÓVEIS (Editorial de "O Jornal de Amarante de 8 de Junho de 2006)


O presidente da Câmara defende nesta edição do JA que a autarquia irá respeitar o sentido geral da população amarantina, quando esta for chamada a pronunciar-se sobre as alterações no trânsito da cidade, recentemente aprovadas pelas duas forças da oposição (PSD e Amar Amarante”) no executivo, contrariando a orientação da força que governa o município.
Recorde-se que Armindo Abreu se opõe à abertura ao trânsito da rua 5 de Outubro e da praça da República, enquanto que a oposição sustenta a reabertura do centro histórico à circulação automóvel.
Os amarantinos vão em breve ser chamados a dizer qual das duas soluções preferem, no âmbito do período de consulta pública, que antecede a apreciação da matéria pela Assembleia Municipal.
Denotando um sentido democrático louvável, Armindo Abreu exorta os amarantinos a pronunciarem-se sobre a matéria, prometendo que irá respeitar o sentido geral da população, mesmo se esta preferir de forma clara a reabertura do trânsito.
Armindo Abreu revela desta forma que não será insensível ao veredicto dos amarantinos, rebatendo pela raiz o argumento daqueles que o acusam de ter um atitude prepotente e antidemocrática quando defende o encerramento ao trânsito como a melhor solução para Amarante.
Revejo-me na plenitude na posição do presidente sobre esta matéria. Seria um erro grosseiro reabrir a circulação automóvel na praça da República, que, bairrismos à parte, considero uma das praças mais bonitas do país. Esse recanto do nosso burgo perderia a actual pacatez, que lhe confere uma ambiência muito especial. O arranjo a que foi sujeita há alguns anos foi desenvolvido no pressuposto de que seria uma praça iminentemente pedonal. Injectar-lhe agora centenas de automóveis diários retirar-lhe-ia brilho e afastaria muitas pessoas que gostosamente a desfrutam em agradáveis caminhadas sobretudo nas noites de Verão.
Várias cidades portuguesas com centro histórico – destaco aqui os casos de Guimarães e Viana do Castelo – têm trabalhado no sentido de afastar os automóveis e a poluição por eles gerada dos principais recantos daqueles burgos, que hoje considero dos mais bonitos do país. São duas cidades com centros históricos muito vivos, com um comércio tradicional pujante, que só beneficiou de uma presença cada vez mais assídua de pessoas. Passear a pé nas ruas antigas de Guimarães ou Vizela, desprovidas do cheio a combustíveis e de poluição sonora, é um prazer enorme.
Amarante deve seguir esses exemplos, potenciando as suas magníficas condições. Se o fizer continuaremos a ver crianças a correr na praça, perante o olhar despreocupado dos pais.
Caso contrário, a beleza da praça será esventrada pelo roncar dos automóveis, que rapidamente passarão a estacionar de forma anárquica. A rua 5 de Outubro transformar-se-á num parque de estacionamento caótico. Os transeuntes terão, como acontecia no passado, de fazer autênticas gincanas para conseguir passar entre os automóveis abandonados pelos automobilistas com menor sentido cívico. Os turistas não deixarão de criticar os responsáveis pelo caos.
Amarante perderá encanto…

Armindo Mendes

> Marão vestido de luto (editorial de "O Jornal de Amarante", de 8 de Junho - parte II)


Mais de 250 hectares arderam no domingo na serra do Marão. Dói o coração olhar para a serra, ontem verde, hoje pintada pelo negro tenebroso do fogo. Resta-nos a consolação de o incêndio não ter sido causado por mão criminosa, mas pela explosão de uma aeronave que caiu na serra.
No domingo, as chamas devoraram hectares de floresta, perante o esforço dos meios de combate para ali destacados, incluindo dois aviões e um helicóptero. Mais uma vez os “soldados da paz” provaram o seu denodo à coisa pública, batendo-se com desprendimento e bravura contra condições adversas, sobretudo o calor intenso e o vento forte. Os bombeiros são uma vez mais credores da nossa vénia.
O pesadelo de domingo fez lembrar o grande incêndio dos anos oitenta. A destruição do incêndio deste fogo constituiu um alerta: há que trabalhar no sentido de criar condições para que o mesmo não se volte a repetir, sob pena de o pulmão de Amarante poder um dia sucumbir.

Armindo Mendes

sexta-feira, 2 de junho de 2006

> SALVE-SE A SEGURANÇA SOCIAL

O ministro da Segurança Social anunciou recentemente que dentro de 10 anos o Estado poderá já não reunir condições para assegurar as pensões dos portugueses. Triste notícia esta, mas não surpreendente, pois desde os governos de António Guterres que se prognosticava este desfecho. À data, o então ministro, Ferro Rodrigues, dizia que, se nada fosse feito, em 2017 o sistema de Segurança Social poderia entrar em falência.
Conclui-se então que os governos dos últimos 10 anos foram, no mínimo, irresponsáveis, ao não terem tomado medidas para inverter a derrocada. Não o fizeram, todos os sabemos, para não terem de enfrentar forças corporativistas, com interesses instalados, que sempre manifestariam resistência à perda de direitos adquiridos.
Até que chegou o governo de José Sócrates, com as conhecidas e impopulares medidas para o sector, nomeadamente a muito contestada convergência dos modelos público e privado de aposentações. Na minha opinião, foi uma tardia, mas corajosa e lúcida decisão. Nunca percebi a razão que sustentava a existência em Portugal de “cidadãos de primeira” e “cidadãos de segunda”. Os primeiros - funcionários públicos - podiam até há pouco aposentar-se ao fim de pouco mais de 30 anos de serviço, o que gerava situações quase imorais de vermos pessoas com pouco mais de 50 anos, perfeitamente saudáveis e activas, já aposentadas.
Os segundos - os trabalhadores do sector privado - obrigados a trabalhar até aos 65 anos, o que quer dizer que muitos completavam a sua carreira contributiva com quase 50 anos de descontos. Mas, mais grave, era o facto de os funcionários públicos se aposentarem com 100 por cento do vencimento e os empregados do sector privado apenas receberem uma reforma correspondente a uma percentagem do seu vencimento. Estas e outras distorções, de que poderíamos aqui falar, contribuíram para o estado em que nos encontramos agora. O país não tem condições para suportar estes “luxos”. Melhor seria que a convergência se fizesse em sentido inverso, isto é, que o modelo privado evoluísse em direcção ao modelo público. Porém, como Portugal não é um país rico, tal cenário não passa de uma mera utopia, que muitos sindicalistas bem intencionados insistem em defender. Mas os mesmos sindicalistas e outras forças ditas da esquerda mais radical defendem outras medidas que eu pontualmente subscrevo, sobretudo a necessidade de o governo agir não só junto do chamado cidadão das classes médias, que tão penalizadas têm sido, mas também, e sobretudo, ouse criar medidas que obrigue quem mais tem a mais contribuir. Reporto-me nomeadamente ao sector financeiro e bancário, cujos lucros astronómicos e em permanente crescendo estão longe de ser tributados na medida ajustada às suas possibilidades, conforme já foi criticado em anteriores editoriais. O executivo também tem de encontrar formas de acabar com as pensões principescas, em alguns dos casos atribuídas após poucos anos de serviço, de que auferem políticos - lembre-se o recente caso de Santana Lopes -, gestores de empresas públicas e militares das forças armadas, sobretudo os de patentes mais elevadas. Impõe-se, sem expedientes dilatórios como aqueles a que temos assistido, sobretudo em relação aos políticos e gestores públicos, a imposição imediata de tectos de pensões e salários, para acabar com estas diferenças imorais de vermos um pequeno leque de privilegiados a auferirem de mordomias quase ofensivas, ao passo que milhões de outros portugueses têm de sobreviver com reformas miseráveis.
Vamos ver se este Governo tem força bastante para levar a bom porto este autêntico desígnio nacional. Salve-se a Segurança Social!
PS: Ao chamar aos funcionários públicos “cidadãos de primeira” não o faço com sentido ofensivo, até porque aqueles não têm culpa de outros governos lhes terem atribuído as referidas regalias.
Armindo Mendes
(editorial de "O Jornal de Amarante, de 12 de Janeiro de 2006)

quarta-feira, 31 de maio de 2006

> TODOS AO JUNHO (S. GONÇALO) DE AMARANTE


As Festas do Junho, em Amarante, constituem uma das mais importantes manifestações religiosas e profanas de toda a região Norte.
A devoção ao santo movimenta muitos milhares de pessoas, principalmente de Amarante, mas também de outros concelhos mais ou menos próximos. Ouve-se falar de pessoas que vêm do Sul do país e até do estrangeiro para pagar as suas promessas ou simplesmente participar nas mil e uma manifestações de natureza profana.
Nos dias da festa são impressionantes as manifestações de fé, com os católicos, romeiros ou não, a "invadir" o mosteiro do padroeiro, no gesto de devoção e tributo a S. Gonçalo, ao qual pagam promessas ou lhe dedicam uma oração. As filas de fiéis para simplesmente pôr uma mão na imagem do santo traduzem a importância de um momento de fé.
A DEVOÇÃO

A missa solene é um dos pontos altos. Na igreja do mosteiro, ecoam comoventes cânticos de tributo ao santo. Os fiéis, engalanados, vestem o traje domingueiro. A majestosa procissão é outro momento de grande simbolismo religioso. Como é bonito ver as ruas engalanadas da cidade de Amarante, emolduradas por muitos milhares de pessoas, que ladeiam as artérias aos magotes, mas em profundo silêncio, à passagem das imagens religiosas. As colchas que decoram as varandas do velho burgo e as flores que cobrem e perfumam as calçadas por onde passa a procissão são outros sinais distintivos destas festas centenárias. O lançamento de cravos da varanda dos reis e a mensagem à cidade do pároco de S. Gonçalo é outro momento recheado de simbolismo, porventura sem paralelo no país, muito apreciado pelos amarantinos e forasteiros que se concentram no largo.

A CULTURA DE UM POVO
Mas o Junho amarantino é também uma enorme manifestação da cultura popular mais genuína, consubstanciada no enfoque dado aos bombos e no desfile etnográfico que evidencia as características mais simples e rurais das freguesias amarantinas.
É todos os anos assim. O povo sai à rua e revê-se nas suas festas. O programa tem mantido uma matriz comum ao longo dos anos, com pequenos ajustamentos, que não comprometem a tradição.
As festas são da família. Impelidos pelos acordes cintilantes dos instrumentos das filarmónicas da terra, pais, mães e filhos deambulam, em vai vem, por entre a multidão, divertindo-se nos carrinhos de choque, comendo uma fartura, provando o algodão doce ou experimentando uma ou outra tasca da cidade, que servem os petiscos mais apetitosos e os verdes tintos mais atrevidos do Norte de Portugal. Muitas famílias trazem os seus farnéis e aproveitam-nos para, enquanto enchem as barrigas, confraternizar nas frescas da florestal. As crianças saltitam de euforia, à procura daquele brinquedo que vislumbraram naquela barraca chinesa, agora tão comuns na nossa festa. O menino chorou por aquele carro da polícia multicolor e barulhento, enquanto a menina suspirou pela boneca de vestido cor-de-rosa faustoso. Os pais lá têm de largar os cordões à bolsa e cumprir a tradição de pelo Junho, oferecer um brinquedo aos filhos.
Os jovens, principalmente os rapazes, folgam com as brincadeiras em torno dos famosos "S. Gonçalos", os doces de forma fálica, alguns de dimensões ousadas, que oferecem às meninas. As mais acanhadas, cabisbaixas, até coram, mas as mais fogosas agradecem o presente e retribuem com o sorriso atrevido e desafiador.
DIAS DE FOLIA

As alvoradas também são especiais. Os grupos de bombos, hirtos pela tradição, marcham na velha urbe de ruas estreitas e íngremes, acordando ritmadamente os que, fadigados pelas noitadas, ainda dormem, como que desafiando os amarantinos para mais um dia de folia.
À noite, todos se aglomeram junto às pontes. O momento vai chegar... O fogo junto ao rio é uma delícia para olhos, que todos os anos fantasiam com o brilho cruzado proporcionado pelo espelho do Tâmega. Quando o fogo começa, os corações batem mais forte as pupilas dilatam. Os mais pequenos dão as mãos aos pais e erguem a cabeça em sinal de espanto, rendidos ao cintilar barulhento do fogo, embalado pela melodia musical que brota de um potente sistema de som, hoje moda m cada festa que se preze.
Os espectáculos das noitadas são sempre muito animados. A organização tem escolhido artistas de renome nacional, ditos populares, que agradam ao povo mais simples, que corresponde com a presença maciça e entusiástica, comprovando que Amarante continua a ser uma terra onde predomina uma cultura pouco urbanizada.
As festas são assim e o povo gosta.
Vamos todos ao Junho.
Armindo Mendes

quarta-feira, 24 de maio de 2006

“O senhor é um homem com sorte”- dizia eu há dias ao meu sogro (editorial de "O Jornal de Amarante, edição de 4 de Maio).

Tal comentário ocorria recentemente à hora do jantar, quando visionávamos um noticiário televisivo no qual eram anunciadas novas mexidas nas regras de atribuição das reformas.

O meu sogro reformou-se merecidamente, após uma vida dura de trabalho, com a bonita idade de 65 anos. Goza agora a merecida tranquilidade, desfrutando dos prazeres que o tempo livre lhe proporciona.

É um homem de sorte. Nós, os que ainda fazemos descontos, somos quase diariamente confrontados com as iluminadas intenções do nosso Governo, tão preocupado anda ele em arranjar maneira dos nos vir buscar mais uns cobres.

Diz-se em S. Bento, e bem, que a sustentabilidade da segurança social está posta em causa e, por isso, é preciso pôr a rapaziada a trabalhar mais anos, até muito perto dos 70.

Diz-se também em S. Bento que se impõe a reforma da Segurança Social. Também concordo. Começo a discordar é do caminho para lá se chegar, mais uma vez penalizando os que menos têm, os que, quando chegar a idade, mais dependerão da dita reforma, pois os magros salários não dão azo a grandes poupanças. Será possível que nos gabinetes alcatifados dos assessores de Vieira da Silva ninguém se lembra que Portugal não é só as classes médias e altas que habitam no litoral, geralmente as mais bem remuneradas.

O nosso país é onde as assimetrias sociais são mais acentuadas em toda a União Europeia. O fosso entre os mais ricos e os mais pobres está cada vez mais fundo e os sucessivos governos têm-se manifestado incapazes de suster esta tendência. Em muitos sectores da sociedade portuguesa o diagnóstico está feito e são apontadas soluções mais ou menos consensuais. Clama-se, justamente, por reformas estruturais que proporcionem condições para a melhoria da produtividade, mas sem comprometer aquela que é a mais bonita bandeira da nossa velha Europa - o Estado Social.

Defendo que a reforma da Segurança Social portuguesa deveria seguir outros caminhos, que não os agora preconizados pelo Governo, acabando com verdadeiras injustiças, que nos fazem clamar pela lucidez dos que nos governam, sejam eles do partido A ou do partido B. É lugar comum dizer-se que são essas arbitrariedades que comprometem a sustentabilidade da segurança social de um país tão desequilibrado como o nosso. Por exemplo, este governo que se diz corajoso por avançar com as ditas reformas estruturais – em alguns casos até o tem conseguido com êxito – poderia agora manifestar força bastante para aplicar novas regras para os que mais têm. Em primeiro lugar, sugiro que, por decreto puro e duro, como tem feito noutros casos, pusesse termo às reformas daqueles que, por terem desempenhado várias funções no Estado e em empresas públicas, acumulam inúmeras e principescas pensões ou acabando em definitivo, sem paliativos retóricos, com as benesses atribuídas aos titulares de cargos políticos, que ao fim de alguns anos, ainda a léguas dos agora saudosos 65 anos, desfrutam do el dorado que as precoces pensões do Estado lhes proporcionam. Seria interessante aplicar também a esses as famosas regras baseadas no aumento da esperança de vida.

Inspirado nas notícias de que nos últimos meses dispararam as reformas com valores superiores a quatro mil euros - na maioria dos casos são antigos gestores de organismos estatais ou militares -, também sugiro ao famoso ministro Vieira da Silva que se fixasse um tecto de reforma em três mil euros, um valor capaz de proporcionar conforto a qualquer cidadão, tendo até em conta que os cidadãos com descontos suficientes para ter uma reforma com aquela grandeza teriam tido, com certeza, na sua carreira contributiva, rendimentos do trabalho mais do que suficientes para financiar esquemas complementares de reforma, como os famosos PPR e outros produtos financeiros, aos quais recorrem hoje muitos cidadãos de classes menos abastadas.

Estes passos, que consubstanciariam a mais elementar subsidiariedade, libertariam verbas para, com grande generosidade, o governo poder reforçar as pensões dos que menos recebem.

Seríamos então capazes de, a plenos pulmões, elogiar a coragem reformista do governo, que até hoje, no Caso da Segurança Social, se tem manifestado sobretudo junto dos que menos têm.