segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

> Portagens à entrada das grandes cidades!

O governo está a admitir a possibilidade de aplicação de portagens nas entradas das cidades do Porto e Lisboa, procurando assim diminuir o número de veículos que todos os dias entram nas duas metrópoles portuguesas. A ideia é procurar contribuir para a redução da poluição em Lisboa e Porto, que são dos mais altos das cidades europeias.
A ideia até parece interessante, mas a sua aplicabilidade revela-se complexa, sobretudo porque irá esbarrar em duas pedras de toque. A primeira reside no facto de as alternativas aos automóveis serem muito más, sobretudo no Porto. As redes de transportes públicos estão longe de corresponder às necessidades. Os autocarros em horas de ponta andam sempre sobrelotados, a rede de metro está ainda numa fase incipiente em termos de cobertura da cidade e os comboios suburbanos também estão longe de corresponder às necessidades. Imagine-se o que seria condicionar a entrada de veículos na cidade e o que isso poderia resultar em termos de ruptura das redes de transportes colectivos.
Além do mais, esta eventual decisão esbarraria na crónica resistência de muitos portugueses, que insistem em levar os carros, se possível, até à porta do supermercado. Muitos compatriotas, eu diria a maioria, são comodistas e têm poucos hábitos de andar a pé ou de transportes públicos. Gostam de levar o automóvel para todo o lado e estacioná-lo tão perto quanto possível do destino, não raras vezes em situações pouco abonatórias para as regras de civismo.
Tenho muitas dificuldades em imaginar determinados portugueses, habituados a mordomias de locomoção, serem agora obrigados a viajar de autocarro ou comboio.
Por outro lado, muitos de nós desconfiam que esta pode ser mais uma forma encontrada sub-repticiamente pelos poderes públicos para encaixar mais uma receita. Será uma espécie de taxa moderadora do trânsito. Será que vão mais uma vez invocar a benignidade da motivação oficial da medida para sustentar mais uma receita para uma administração ávidas de recursos, seja ela local ou nacional?

sábado, 27 de janeiro de 2007

> À espera de um debate clarificador

O país já está em pré-campanha para o referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. Por estes dias, vamos ouvindo argumentos mais ou menos contundentes num e noutro sentido, de tal forma que parte dos cidadãos se vai sentindo um pouco confusa, sobretudo os que não têm uma opinião muito firme sobre a matéria. Ouve-se os argumentos do sim e do não e reconheçamos que ambas as parte vão esgrimindo razões fortes às quais não ficamos indiferentes.

Esta não é uma matéria de esquerda ou de direita. Trata-se de uma questão de consciência. Tenho, como é óbvio, uma opinião, que não vou revelar de forma explícita neste editorial, obrigado que estou, enquanto director, ao princípio da isenção. Prefiro reflectir noutro sentido. Espero que a campanha eleitoral não se transforme numa cacofonia e “folclore” de argumentos num e noutro sentido, uns mais demagógicos do que os outros, que só vão contribuir para uma menor sensibilização das pessoas. Seria bom que, desta feita, o debate fosse elevado e clarificador, o que também seria um factor acrescido de motivação para que os cidadãos votem maciçamente. Depois, só há que respeitar o veredicto do eleitorado, alterando-se ou não a lei em vigor.

(In Editorial de "O Jornal de Amarante"

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

> 30 anos de desenvolvimento


Um pouco por todo o país estão a ser assinalados os 30 anos de poder local democrático.
O momento é de comemoração, porque é unanimemente reconhecido o papel que as autarquias locais têm protagonizado no desenvolvimento do país no período pós 25 de Abril.
Todos sabemos que as autarquias são responsáveis por uma percentagem muito considerável das múltiplas realizações que um pouco por todo o Portugal têm contribuído para a melhoria significativa da qualidade de vida das populações. Ao trabalho dos autarcas portugueses deve-se muito do que hoje é já normal ver-se nas nossas cidades, vila e aldeias. Os pavilhões desportivos, as piscinas, as bibliotecas, as escolas, as estradas, o abastecimento de água e os esgotos, entre outras realizações, são sinais da actividade das autarquias, sejam elas câmaras municipais ou juntas de freguesia.
Todos aceitamos que as câmaras municipais são hoje responsáveis por uma percentagem muito considerável das realizações no país, numa proporção incomparavelmente superior às despesas que estas representam na máquina do Estado. Ou seja, com muito menos dinheiro, as câmaras conseguem fazer mais do que a administração central. Além disso, o trabalho das câmaras e também das juntas é o que mais directamente é perceptível pelo população, pois incide em áreas caras a cada um de nós e que têm influência decisiva na nossa qualidade de vida. Esta é a pedra de toque fundamental, que emerge quando se faz um balanço genérico do trabalho das autarquias, o qual, necessariamente tem de ser positivo.
As autarquias atravessaram durante estes 30 anos um período de vacas gordas, com os fundos comunitários e a permitirem avançar com investimentos estruturantes. Deve-se, aliás, reconhecer que parte daquilo a que chamamos hoje desenvolvimento se deve aos fundos da União Europeia, sem os quais uma percentagem muito grande daquilo que foi realizado teria sido de todo inviável. Muitos municípios souberam aproveitar melhor do que outros os dinheiros da Europa. Uns investiram em equipamentos estruturais, outros em obras ditas de fachada, que no imediato poderão ter rendido mais votos, mas, a prazo, pouco retorno estarão a ter na qualidade de vida e desenvolvimento das populações. Em algumas cidades próximas vê-se muito cimento, mas faltam-lhes ainda equipamentos básicos para o bem-estar dos seus munícipes. Reporto-me principalmente a coisas tão básicas como as redes de águas e esgotos, valências que em alguns concelhos próximos estão muito atrasados. Investir milhões nas infra-estruturas de água e esgotos para depois enterrar nunca deu votos, antes pelo contrário, até irritavam os automobilistas confrontados com os incómodos das estradas esburacadas. Alguns preferiram obras mais faustosas, como rotundas em tudo quanto é sítio com fontes cibernéticas de gosto muito duvidoso. Com esta estratégia granjearam muitos votos, sobretudo junto dos extractos populacionais menos informados, mas deixaram os respectivos concelhos atrasados em domínios essenciais, que agora vão ter muita dificuldade em recuperar.
A actividade de cada município reflecte muito o estilo e o modo de actuação dos seus autarcas. Por cá, em Amarante, não somos excepção. Armindo Abreu não é um presidente mediático, tido como autor de rasgos visionários. É um autarca de “low profile”, isto é, um presidente discreto. Não quero com isto dizer que o presidente amarantino não é eficaz. O nosso autarca tem um modo próprio de trabalhar. Mais discreto, mas persistente, procurando alcançar os seus objectivos de forma que considera mais vantajosa para os amarantinos. Alguns comparam isso a falta de ambição. Tenho uma opinião diferente e assento esse meu ponto de vista na obra que Armindo Abreu e as suas equipas já conseguiram, independentemente de haver ainda muito para se fazer, como aliás reconhece o edil.
Os 30 anos de poder democrático em Portugal valeram a pena. Aqui em Amarante, creio, será dos concelhos do nosso espaço regional onde esse desiderato terá sido mais bem conseguido.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

> Vitória de Armindo Abreu


Haverá em Amarante, por estes dias, razões para satisfação em Amarante? Têm sido meses de turbilhão na saúde, sobretudo com as polémicas decisões da tutela que têm retirado valências ao hospital de S. Gonçalo, mas a recente vinda do ministro Correia de Campos a terras de Pascoaes traduziu-se numa prenda para todos os amarantinos, sobretudo para o presidente da Câmara.
O anúncio de construção de um novo hospital e os elogios do ministro ao líder da edilidade constituíram uma das maiores vitórias de sempre de Armindo Abreu, que terá vivido na segunda-feira passada uma página inolvidável.
Recorde-se que o ministro foi eloquente quando afirmou, perante uma vasta plateia que enchia o auditório do hospital, que a decisão política de construção do novo equipamento também se deveu à “postura serena” que Armindo Abreu adoptou nos últimos meses, sobretudo a “forma dialogante” que sempre teve com o Governo no polémico processo de encerramento da maternidade. Essa postura terá sensibilizado o ministro… Direi que Armindo Abreu terá jogado nos últimos tempos algum capital do seu futuro político. Fez uma aposta que considerei arriscada, quando acabou por contrariar a opinião pública concelhia ao não defender de forma inequívoca a continuidade da maternidade. Já escrevi em editorial que se as coisas tivesses evoluído em sentido diferente, isto é, se o governo não tivesse avançado com esta contrapartida do novo hospital, tudo poderia ficar complicado para o presidente da Câmara e para o PS. Estes, com certeza, iriam ser responsabilizados nas próximas eleições autárquicas, pelos seus adversários, pela perda de valências do hospital. Mas, pelo que segunda-feira se ouviu da boca do ministro, Amarante vai ter mesmo um novo hospital e, assim sendo, Armindo Abreu só deve ter razões para sorrir, conquistando um trunfo político que poderá ser determinante dentro de três anos quando os amarantinos forem chamados a votar. A esta vitória a toda a linha de Armindo Abreu não deve estar alheia a experiência e intuição política do autarca, sobretudo a forma como, em tempo útil, soube ler a realidade nas entrelinhas. Nas conversas que teve com quem de direito neste processo, o autarca terá percebido que era muito difícil pôr travão à determinação do ministro quando este, escudado num discurso intransigente, decidiu encerrar a maternidade. Terá percebido Armindo Abreu que a popularidade que uma postura diferente lhe poderia valer em Amarante redundaria num diálogo de surdos com o Governo, com evidentes prejuízos para o futuro do hospital de S. Gonçalo, cuja continuidade sairia comprometida. Nem todos concordarão com esta visão, mas há que reconhecer que foi a estratégia que vingou, com inequívocas mais-valias para Amarante.
Mas, em minha opinião, haverá outro factor que poderá ter pesado nesta decisão do governo. O PS nacional e distrital está muito grato a Armindo Abreu pela vitória que conseguiu no ano passado, naquelas que foram as mais mediáticas eleições alguma vez realizadas em Amarante. Note-se que foi o único que conseguiu vencer os chamados candidatos arguidos e esse desiderato granjeou a Armindo Abreu um capital político sem precedentes no seio do PS. Sei que Armindo Abreu é ainda hoje saudado de forma efusiva quando se encontra com camaradas do partido em iniciativas de âmbito distrital e nacional. O presidente da Câmara potenciou agora esse trunfo para, numa conjuntura adversa, conseguir convencer a tutela a dar luz verde a uma obra que vinha a ser prometida por sucessivos governos e que muitos amarantinos já consideravam uma autêntica utopia.
2- Também por estes dias Amarante tem razões para estar satisfeito com outro dado recente. O semanário Expresso escolheu a nossa cidade com a que melhores espaços verdes tem no país. Amarante também ficou muito bem classificado noutros indicadores, como a preservação do património, relação com a água e paisagem, segurança, restauração, equipamentos desportivos, sinalética e qualidade dos espaços públicos. Estes dados só reforçam o que tenho defendido, isto é, que os amarantinos têm muitas razões para ter orgulho na sua cidade. Esta não é perfeita, mas as suas qualidades não merecem os comentários menos abonatórios que alguns dos seus filhos menos informados insistem verberar.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

> A execução de Saddam...

Recentemente, entraram-nos casa dentro as imagens da condenação de Saddam Hussein. Como muitos portugueses, também eu fiquei chocado com a barbaridade daquele acto, praticado por um Estado que se diz agora uma democracia! É certo que Saddam foi um dos mais sanguinários ditadores de sempre. É certo que merecia um castigo exemplar pelo sofrimento que infligiu a milhões de iraquianos nos longos anos do regime sunita que liderou com punhos de aço.
Mas castigo exemplar não significa pena de morte, à qual, por uma questão de princípio e filosofia de vida, me oponho em todas as circunstâncias. Não concebo que um Estado se arrogue no direito de violar o mais elementar dos direitos humanos – o direito à vida – e distribua imagens da vítima prostrada, que chocaram os mais sensíveis, inclusive muitas crianças.
Além disso, a execução da pena capital numa fase crucial como esta para a pacificação do Iraque poderá politicamente revelar-se um autêntico barril de pólvora, acentuando as clivagens culturais e religiosas no país, de consequências imprevisíveis. Alguns observadores falam do receio de uma guerra civil generalizada, convicção que os norte-americanos parecem querer levar muito a sério, protagonizando também eles uma fuga para a frente. Pelo que se ouve, a administração Bush, fazendo jus à sua inabilidade para lidar com o problema, em vez de seguir as recomendações que tem recebido para reduzir a sua presença no Iraque, prefere fazer o contrário, reforçando o contingente naquele autêntico inferno para as suas tropas.
Voltando a Saddam. Acredito que o Estado iraquiano teria dado um sinal de tolerância se tivesse evitado a pena capital, comutando-a pela prisão perpétua. Seria uma mensagem de perdão parcial pelas atrocidades cometidas pelo ditador e talvez o gesto pudesse ser bem acolhido pela comunidade sunita, apaziguando o clima de tensão que grassa no país.

> O IRS e os jogadores de futebol

Por estes dias, um dos temas da actualidade tem a ver com a intenção do governo de obrigar os jogadores de futebol a pagar IRS calculado a partir da totalidade dos seus rendimentos, em vez dos 60 por cento como acontecia até agora.
Esta decisão foi contestada vivamente pelo sindicato dos jogadores, que a considera injusta, ao ponto de ameaçar com greve se a mesma for por diante. Os jogadores alegam que têm uma profissão de desgaste rápido e que, por isso, merecem discriminação positiva.
Os argumentos dos jogadores são há muito conhecidos, mas admito a minha surpresa quando estes, agora, acrescentam que estão dispostos a fazer greve como forma de pressão.
Discordo em absoluto dos argumentos dos jogadores, sobretudo quando alegam que exercem uma profissão de desgaste rápido… Quererão esses cidadãos dizer que aos trinta e poucos anos ficam impedidos de trabalhar? Quando muito, terão dificuldade em prosseguir a actividade como jogadores, mas mantêm todas as faculdades físicas para abraçar qualquer outra profissão, inclusive algumas na área do futebol, como a de treinador. Quantos portugueses perdem o emprego aos 30 anos e têm de se desenrascar numa actividade diferente da que exerceram anteriormente? Os jogadores não são diferentes dos demais cidadãos. Além disso, ninguém os obrigou ao exercício daquela actividade, que sabiam de antemão teriam de abandonar aos trinta e poucos anos.
Os jogadores não podem ser uma classe privilegiada. Como se pode justificar que um senhor que ganha milhões e ostenta sinais exteriores de riqueza sumptuosos pague de IRS uma percentagem do seu ordenado inferior à da generalidade dos portugueses? Considero essa actual distorção do nosso sistema fiscal uma verdadeira imoralidade, que urge ser corrigida. Faz-me lembrar aquela hilariante “boca” do presidente da Federação Portuguesa de futebol no final do Mundial, quando, em nome do sentido patriótico, sugeria que os chorudos prémios pagos aos pobres jogadores da selecção fossem também isentos de tributação pelo IRS.

sábado, 30 de dezembro de 2006

> Acreditar no futuro...

O primeiro-ministro José Sócrates, na sua mensagem de Natal ao país, traçou um cenário muito optimista em relação ao futuro de Portugal. Falou dos resultados já conseguidos e reconheceu que algumas políticas do Governo têm causado dificuldades aos portugueses. José Sócrates só podia ter este discurso. Ouvindo o chefe do governo, pareceu-me que acreditava no que estava a dizer aos portugueses. Fiquei com a ideia de que Sócrates está convencido de que este é o caminho para que o país corrija alguns problemas estruturais crónicos que estão na base do atraso que tem em relação aos seus parceiros europeus. Sócrates e os seus ministros devem prosseguir o seu trabalho, mostrando-se impermeáveis aos poderes corporativos da nossa sociedade, que têm procurado impedir a implementação de reformas que comprometem algumas regalias injustificadas.


Mas Sócrates não pode ficar encandeado pela frieza da linguagem tecnocrata, ordenando todas as suas políticas em função de critérios meramente estatísticos, que muitas vezes, qual autêntica enxurrada, acabam por levar ao sufoco das classes mais frágeis da nossa sociedade, nomeadamente as que menos folga tinham para suportar o embate de algumas decisões deste Governo. Também me parece que algumas medidas devem ser corrigidas, pondo fim a um afunilamento de investimentos cada vez mais evidente nas regiões do litoral, conduzindo a um atrofiamento do interior deste nosso país, cada vez mais vergado ao fenómeno da desertificação.

Bem sei que deve ser problemático compaginar todos os interesses, procurando, em nome do interesse colectivo, levar por diante as reformas necessárias, mas, ao mesmo tempo, criar condições para minimizar o seu impacto negativo nos portugueses menos favorecidos, nomeadamente os do interior, onde os rendimentos são mais baixos. Esse é o principal desafio de Sócrates e de Portugal. Só os grandes governantes serão capazes de o fazer. Se o país crescer, com certeza que, a prazo, vai reunir melhores condições para prestar assistência a quem mais precisa. Se o país crescer, a economia fica mais forte, criam-se mais empregos e, em teoria, reduzem as situações de exclusão social. Quero acreditar: este é o grande desígnio de Sócrates, um primeiro-ministro com sensibilidade social, à qual deve fazer jus nos próximos anos, temperando alguns excessos tecnocratas.

Um próspero Ano Novo para todos.

sábado, 23 de dezembro de 2006

> É Natal


É da praxe nesta altura do ano escrever um texto sobre o Natal. Com muita franqueza, face ao volume intenso de trabalho a que tenho estado sujeito nas últimas semanas, quase não tive ainda a sorte de sentir o espírito da quadra.
Admito, aliás, que de ano para ano tenho mais dificuldade em senti-lo, pelo menos na forma e na intensidade de outros tempos. O reboliço do dia a dia quase trucida a possibilidade de pararmos para pensar no chamado espírito natalício, que por estes dias a publicidade procura reproduzir em tons de fantasia, em doses industriais. De tal forma assim é que olhamos para tudo isto com uma sensação estranha de artificialismo. Sentimos que há uma máquina poderosa por detrás desta imagem magnânima do Natal. É uma máquina comercial que procura vender tudo e mais alguma coisa, tirando partido de uma sociedade cada vez mais materialista, que tem o seu clímax nesta quadra de consumismo exacerbado. Muitas pessoas perdem-se nesta altura do ano. Gastam enormes quantidades de dinheiro em verdadeiras inutilidades que oferecem apenas para cumprir uma espécie de ritual. Para mim, o Natal é diferente. Nas poucas horas que lhe dedico, procuro fazê-lo de forma mais qualitativa do que quantitativa. Passo a explicar: ligo muito pouco aos presentes, excepto os que se destinam às crianças, essas sim, credoras da nossa atenção especial, também no gesto de oferecer algo que lhes proporciona tanta alegria. Quanto aos adultos, o tratamento é diferente. Para alguns, poucos, os que me dizem mais ao coração, não esqueço um presente, que procuro seja muito especial. Para os demais, inclusive familiares, com a concordância desses, reservo apenas a minha presença sentida na noite ou no dia de Natal. É uma decisão partilhada e recíproca que tomámos há alguns anos. Não gastamos assim tanto dinheiro em pares de meias, perfumes ou outras inutilidades, mas mantemos o espírito natalício do convívio à volta das batatas cozidas com bacalhau, enquanto, por entre uma rabanada e um prato de aletria, aguardamos o momento sempre tão bonito de convidar as crianças da família a abrir os presentes deixados pelo Pai Natal.
É uma delícia para os olhos e um bálsamo para o coração vermos a alegria dos nossos meninos. Sentimo-nos também crianças e o espírito impele-nos para junto dos mais novos, com os quais experimentamos as delícias de brincar com as novidades deixadas pelo Pai Natal.
Mas Natal é também o tempo em que muitos negócios aproveitam para fazer um pé-de-meia. Tanta gente espera esta quadra na expectativa de poder recuperar de um ano parco em receitas. O Natal tem esta veia de consumismo, mas reconheçamos que esse, na óptica de quem vende, tem mesmo de existir. Faço esta reflexão lembrando sobretudo o pequeno comércio, cada vez mais sujeito a uma pressão enorme das grandes superfícies comerciais. O comércio tradicional enfrenta um desafio enorme, que poucas lojas estarão em condições de vencer. Não tenho dúvidas de que os anunciados centros comerciais nestas cidades pequenas, como o que está previsto para Amarante, acabarão com o que resta do nosso pequeno comércio. Poucas lojas saberão e terão capacidade de resistir, confrontadas com a concorrência de uma superfície comercial recheada de lojas moderníssimas, com marcas da moda e com um design atraente. As novas gerações não têm o hábito de percorrer os centros históricos no comércio tradicional. Preferem o conforto do ar condicionado dos centros comerciais, onde encontram as lojas das marcas preferidas e a comida de plástico que tanto apreciam. No galgar dos anos, o comércio tradicional vai definhando e só sobreviverá o que for capaz de se renovar, procurando ir de encontro às necessidades das novas gerações.
Num futuro não muito distante, o Natal, no que ao consumismo diz respeito, vai ser quase um monopólio das catedrais do consumo, deixando às moscas as ruas de cidades que noutros tempos fervilhavam de sensações nesta altura do ano.
Todos vamos preferindo, cada vez mais, o calor do centro comercial, ao frio e à chuva das calçadas, ainda que recheadas de história…
São os ditames dos nossos tempos.
Ainda assim, feliz Natal para todos.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

> Natal em Amarante (foto Armindo Mendes - direitos reservados)

Numa noite fria e de nevoeiro... uma quente imagem do Natal amarantino....

> Muitos partem...

Tenho observado nos últimos meses a partida de algumas pessoas do meu rol de amizades para alguns países europeus à procura de melhores dias. Vão tristes por deixar a sua terra, mas esperançados em dias melhores.
Esperam sobretudo muito trabalho, quase sempre pouco qualificado e que os cidadãos dos países de destino não estão dispostos a fazer. Construção civil, agricultura e hotelaria são as principais actividades, a troco de um salário mínimo nos países de acolhimento, mas interessante atendendo ao nosso paupérrimo poder compra. Nos dias que correm, uma remuneração de 1500 ou 2000 euros é muito difícil de se conseguir em Portugal, mas lá fora, com um pouco de sorte, assegura-se esse ordenado, o que tem permitido a alguns fazer algumas economias para fazer face aos encargos domésticos.
Em Portugal deixam, não raras vezes, mulheres e filhos. Alguns que conheço não disfarçam o sofrimento que essa situação lhes provoca, mas a ela têm de se resignar, vergados à imperiosa necessidade de ganhar pão para si e para os seus. Nos olhos de um amigo próximo, nos momentos da partida, percebe-se uma tristeza imensa que nos contagia e nos deixa uma sensação azeda...
É triste esta situação. É triste vivermos num país que se diz desenvolvido e não reúne condições para que as pessoas que por cá vivem possam ter direito a algo tão essencial como o trabalho. O que dizer disto, quando vemos que, em simultâneo, tanto dinheiro é desperdiçado por uns quantos, ditos das classes mais favorecidas? É triste percebermos que neste país o fosso entre os mais necessitados e os mais abastados se acentuou neste período de crise prolongada, como se vai percebendo pelas vendas em alto dos veículos topos de gama. Tento, em vão, perceber a que se deve esta tendência. Os especialistas em “economês” afirmam que estas assimetrias são normais em fases de recessão económica, o que parece ser uma inevitabilidade cruel que muitas empresas aproveitam de forma perversa. Por exemplo, custa-me perceber que país é este onde muitas empresas em vez de apostar na excelência e na qualificação dos recursos humanos, preferem usar e abusar de mãos de obra barata e nem sempre com a qualificação ou experiência mínimas.
Permitam-me que, a propósito do que já escrevi, reflicta um pouco sobre o que se vai passando na minha área profissional – a comunicação social –, eventualmente algo que não será muito diferente do que acontece noutras áreas laborais. Há cinco anos, a maioria dos jornalistas da minha geração, que vagueiam na casa dos trintas, ocupavam cargos de destaque nos principais jornais e rádios da região. Eram, por isso, profissionais razoavelmente remunerados. Chegados os primeiros sinais de crise económica, que rapidamente afectaram as empresas de comunicação social, estas confrontadas com uma baixa acentuada do volume de publicidade – a sua principal receita – logo tiveram a compreensível necessidade de avançar com uma política de contenção de despesas, em alguns casos também na área dos recursos humanos. Até aqui tudo normal. Menos normal se tornou a tendência que então se adoptou, que passou por, gradualmente, ir dispensando os jornalistas mais experientes, que foram considerados um peso excessivo, atendendo aos salários que auferiam. Esta política foi seguida de outra ainda mais censurável, que passou pelo convite a um sem número de estagiários em regime precário, isto é, com o mero expediente do recibo verde, que passaram a desempenhar as funções dos dispensados. Dirão alguns, foi a forma encontrada por algumas empresas de comunicação social para continuar a trabalhar. Por tudo isto, não se admirem as pessoas da perda de qualidade da maioria dos órgãos de comunicação social de uma região deprimida cuja economia tem dificuldade em sustentar os jornais que por cá existem. Enquanto os ditos estagiários, são convidados a manter o seu regime precário por tempo indeterminado, alguns jornalistas de qualidade na nossa região estão no desemprego há meses, nalguns casos há anos. Ninguém lhes dá trabalho, simplesmente porque são “demasiado” caros e porventura saberão demais, ao ponto de poderem reclamar aquilo a que qualquer trabalhador tem direito.
Um desses jornalistas, que foi em tempos não muito distantes, chefe de redacção de um importante jornal do Vale do Sousa, dizia-me, desencantado, que tinha recebido uma proposta para ir para Inglaterra apanhar tomates. Dizia-se tentado a aceitar o desafio.
“Estou farto de nada fazer”, afirmava-me ao telefone, logo me pedindo a minha opinião.
Não fui capaz sequer de esboçar uma resposta.

Era inevitável?

Para grande tristeza de muitos amarantinos, consumou-se o há meses anunciado encerramento da maternidade do Hospital de S. Gonçalo, um dos poucos equipamentos que distinguia Amarante dos demais concelhos do Baixo Tâmega.
Este é um momento que nos deve a todos fazer reflectir face ao país que temos e o Portugal que queremos legar aos nossos filhos e netos.
Assumi por diversas vezes, em editorial, a minha firme oposição a esta medida do governo, que considero injusta, sobretudo porque se baseia em pressupostos alegadamente técnicos, cuja sustentação tem sido rebatida em vários fóruns com participação de pessoas avalizadas na matéria. Reafirmo a minha convicção de que esta decisão do ministro Correia de Campos assenta em critérios economicistas, que mais não visam do que concentrar serviços e assim diminuir despesas, aliás na linha de outras políticas para o sector, como aquela que já está prevista para as urgências médico-cirúrgicas que vão encerrar em vários hospitais do país, inclusive no de Amarante, este, pelo que se tem ouvido, apenas durante a noite.
Sabemos que o país atravessa dificuldades e que este governo tem posto em marcha medidas corajosas para corrigir alguns desequilíbrios estruturais, as quais tenho, na maioria dos casos, enaltecido. Mas, em relação à saúde, muitas decisões têm ido, em minha opinião, longe demais. Em primeiro lugar, porque têm um impacto quase brutal nos extractos da população mais débeis, como os reformados e as famílias de menores posses económicas, agora obrigados a deslocações maiores a hospitais distantes e desenraizados da área de residência dos doentes. Para alguns de nós, possuidores de bom automóveis, uma deslocação a Penafiel até nem terá grande impacto nos orçamentos particulares, mas para centenas de reformados da região, de meios rurais, que têm de viver mensalmente com um minguo orçamento e nem sequer têm transporte próprio, uma deslocação ao Hospital Padre Américo ou outro qualquer, de autocarro ou de táxi, pode significar uma despesa enorme, que ninguém da tutela irá comparticipar.
Bem sei que muitos defensores destas medidas para a saúde do governo já estarão a chamar-me demagógico, avançando com um chorrilho de dados estatísticos que sustentarão a decisão de Correia de Campos. Mas a minha sensibilidade é outra: por mais adequada que pareça uma medida, quando analisada à luz de critérios genéricos aferidos nos distantes gabinetes ministeriais, não devemos nós, cidadãos comuns, esquecendo disciplinas partidárias, questioná-las quando olhamos à nossa volta e percebemos os impactos que essas decisões têm em muitas pessoas, que não passam de números insignificantes na visão tecnocrata de uns quantos políticos. Que importância terá para esses senhores o sofrimento de um idoso doente ou de uma família de uma mãe pobre agora obrigada a ter o seu filho lá longe em Penafiel? Com certeza pouca… Tão pouca quanto o peso que os concelhos de um interior cada vez mais desertificado têm à luz dos nossos políticos, que não querem ver o grave erro em que estão a lavrar, quando, esquecendo princípios de subsidiariedade que assumiram quando por cá passaram aquando das eleições, insistem em medidas que acentuam a fuga das populações do interior rural para um litoral cada vez mais sobrepovoado e com uma qualidade de vida em constante degradação, como se vê pelo aumento da criminalidade violenta dos grandes centros, o trânsito caótico e os níveis de poluição atmosférica e sonora.
Outros países da Europa, mais desenvolvidos do que o nosso, adoptaram medidas idênticas em décadas anteriores, concentrando serviços e investimentos em infra-estruturas nas maiores cidades. Hoje, os mesmos países, confrontados com um crescimento brutal da suas grandes cidades, onde crescem os bairros degradados, reconhecem o erro e começam a apostar em medidas no sentido inverso, investindo em serviços desconcentrados de qualidade que ajudem a fixar as populações do interior e assim aliviem a pressão sobre os grandes centros.
Infelizmente Portugal, também no tipo de políticas adoptado, também enferma do atraso crónico que nos transforma num dos países mais atrasados de Europa.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

> Agarrar a oportunidade


Amarante poderá ter, em breve, um grande centro comercial do grupo Martifer, com uma área superior a 15 mil metros quadrados. A estrutura está perspectivada para os terrenos junto às antigas instalações da Tabopan, entre estes e o edifício Cristal Center.
A matéria foi já discutida em reunião de Câmara e nesta fase o executivo, a pedido do Ministério da Economia, onde se encontrão processo para autorização, apenas se tem de pronunciar sobre a localização. Na reunião de segunda-feira a oposição levantou dúvidas sobre os impactos que o centro comercial poderá ter em termos de congestionamento de tráfego naquela zonza da cidade, sobretudo na EN 15, cuja faixa de rodagem, com se sabe, não reúne condições para suportar o esperado fluxo de trânsito. Os serviços técnicos da Câmara já propuseram que o promotor do empreendimento faça uma via paralela entre o centro comercial e a EN 15 que permita um acesso mais facilitado e minimize o impacto na EN 15.
Mais do que estar aqui a discutir questões técnicas, cuja pertinência não ouso questionar, pretendo apenas reflectir quanto à necessidade desta matéria não ser politizada. As forças com assento no executivo devem procurar acautelar, acima de tudo, os interesses de Amarante, uma cidade que muito beneficiaria com a construção de um centro comercial com a qualidade do que está projectado. Amarante não se pode dar ao luxo de perder o interesse manifestado pelo grupo Martifer, o mesmo que recentemente inaugurou um centro comercial em Paços de Ferreira, que criou mais de mil postos de trabalho e reforçou a notoriedade daquela cidade do Vale do Sousa. Amarante ganhará postos de trabalho e reforçará a sua capacidade de atractividade no quadro do Baixo Tâmega. Poderá ser também uma oportunidade de muitos lojistas do comércio tradicional, como já está a ocorrer em Paços de Ferreira, poderem beneficiar do acréscimo de pessoas que passarão a visitar a cidade. Todos devemos estar atentos e tirar o melhor partido de uma mais-valia que, espero, constituirá um tónico para que Amarante, em certos aspectos, sobretudo o comercial, descole de uma certa letargia.

domingo, 26 de novembro de 2006

> Centro histórico mais vivo


O novo regulamento de trânsito da cidade de Amarante vai entrar em vigor nos próximos dias, introduzindo pequenas alterações nos sentidos de circulação de algumas artérias, mas mantendo aquilo que é mais importante: o centro histórico livre da circulação de automóveis.

Termina assim um longo e polémico processo de elaboração do regulamento de trânsito da cidade, que foi politizado em demasia, acabando por prejudicar a discussão aberta da questão de fundo em que muitos amarantinos divergem: haver ou não trânsito na praça da República e Rua 5 de Outubro.

A oposição no executivo municipal chegou a impor a sua maioria naquele órgão alterando aquela que era a proposta inicial do vereador do pelouro, Carlos Silva. Como recordar-se-ão os nossos leitores, a referida proposta mantinha a interdição da circulação no centro histórico, mas os dois vereadores do movimento Amar Amarante e os dois dos PSD impuseram a aprovação de alterações que apontava no sentido de reabertura daquela zona da cidade ao trânsito.

Semanas depois, cumprido o período de discussão pública, a proposta emanada da Câmara aprovada pela oposição foi submetida à Assembleia Municipal, onde a maioria socialista impôs nova alteração, desta feita em sentido contrário, repondo a filosofia inicial da proposta que havia sido apresentada no executivo pelo vereador do pelouro. Viveram-se então na Assembleia Municipal momentos que em nada abonaram para a boa imagem daquele importante órgão autárquico, com uma discussão nem sempre civilizada entre as duas correntes de opinião. O momento mais crítico ocorreu quando, após uma maratona de argumentos contraditórios, foram postas à votação as alterações propostas pelos deputados do PS e os eleitos da oposição, com excepção dos presidentes de junta, decidiram abandonar a sala, evidenciando uma manifesta falta de cultura democrática, ao não acatarem a vontade soberana da maioria, aliás tão legítima quanto a maioria no órgão executivo que tinha imposto uma decisão diferente, contra a vontade do partido que ganhou as eleições em Outubro de 2005.

Estes episódios trouxeram à colação, como repetidamente já escrevi nestes editoriais, a urgência de os principais partidos do círculo do poder – PS e PSD – se entenderem no sentido de alterar a lei actual que confere ao executivo municipal uma vocação colegial, que pode redundar, como ocorre actualmente em Amarante, numa correlação de forças entre os partidos das oposição poderem impor a sua vontade à força que recolheu maior número de votos em eleições.

Mas, mais do que escalpelizar de novo esta matéria de foro legislativo, prefiro quedar-me na satisfação de poder constatar que a minha opinião sobre a questão do trânsito acaba por ser coincidente com a que efectivamente vai agora ser posta em marcha. Bem-haja aos que, nos locais próprios, resistindo à demagogia fácil, se bateram com grande elevação, pela manutenção de uma conquista da cidade de Amarante: o centro histórico livre de carros.

Aplaudo a lucidez dos que acham que uma cidade sem carros é uma cidade mais viva uma cidade mais saudável, onde todos podemos caminhar calmamente, desfrutando da beleza daquele que considero ser um dos quadros mais bonitos do nosso Portugal.

Compreendo que alguns, sobretudo pequenos comerciantes, tenham uma opinião contrária, confrontados que estão com uma crise económica que também os afectada. Não creio, porém, que a questão do trânsito explique as dificuldades. Penso até que as ruas fechadas propiciam melhores condições para as compras no comércio tradicional, como se pode constatar noutras cidades onde isso já ocorre. Mais do que os lamentos, era importante que alguns comerciantes se esforçassem no sentido de modernizar os seus estabelecimentos, tornando-os mais apelativos e também, porque não, praticassem horários mais condizentes com as exigências do um mercado cada vez mais concorrencial. Se o fizessem reuniriam melhores condições para potenciar, em proveito próprio, o maior fluxo de clientes, muitos dos quais até são turistas, que caminham nas ruas de Amarante e tantas vezes encontram as lojas encerradas.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

> S. Martinho de Penafiel: tradição mantém-se


> Condenação de Saddam: faca de dois gumes!

A recente condenação à morte do ex-ditador iraquiano, Saddam Hussein, não surpreendeu ninguém. Tudo apontava para que fosse esse o desfecho do julgamento, tão graves eram os crimes de que vinha acusado o velho senhor de Bagdad.
Pelo meio, segundo alguns observadores, verificaram-se alguns atropelos dos direitos à defesa do arguido, que não abonam em nada à boa imagem do novo regime no poder.
Sem ousar questionar a justeza genérica da condenação do ex-ditador, insurjo-me, porém, contra a pena aplicada, simplesmente porque sou contrário à aplicação da pena de morte. Também, por este aspecto, se afere a diferença cultural que ainda separa os povos europeu e americano, o primeiro, onde abunda uma tradição humanista, claramente contrário à aplicação da pena de morte, e o segundo, de tradição mais “belicista”, maioritariamente favorável àquela sanção, que aliás aplica no seu próprio sistema judicial.
A pena aplicada a Saddam pode, entretanto, acicatar ainda mais os ânimos num país que é uma manta de retalhos. As primeiras reacções apontam nesse sentido, com os xiitas a manifestar o seu regozijo e os sunitas a sua contestação. É quase certo que as duas comunidades se vão envolver em mais uma onda de violência, o que acabará por gerar um número indeterminado de mortes, ajudando a deitar por terra o esforço do governo local e do invasor americano para tentar acalmar o país. A condenação de Saddam, paradoxalmente, também poderá ser uma má notícia para os soldados norte-americanos, que continuam mergulhados num colete-de-forças encarniçado, do qual não sabem como sair. Enquanto o presidente Bush, no conforto da sala oval, agora muito preocupado com as eleições para o Congresso, se vangloria do feito do tribunal iraquiano, os soldados da super potência vão morrendo às dezenas, incapazes de suster ódios étnicos enraizados por longos anos de recalcadas assimetrias sociais e divergências religiosas radicais. A intervenção militar americana, baseada em pressupostos que hoje se sabe terem sido desprovidas de sustentação objectiva, só veio incendiar o rastilho deste barril de pólvora que ninguém sabe como e quando irá parar. O povo americano começa a questionar-se até quando vão continuar a morrer os seus filhos, a troco de uma pretensa segurança doméstica que tarda em chegar. Cada vez mais se desenha na penumbra uma triste analogia entre o que se passou no Vietname e o que vai grassando naquele país. Preocupa-me ainda que esta condenação de Saddam possa ser aproveitada por organizações radicais para justificar mais alguns actos tresloucados, vitimando civis inocentes em países ocidentais, como já aconteceu em Nova Iorque, Londres e Madrid.

> Dogmatismo ideológico

Fui por estes dias abordado por um cronista amarantino que me questionava sobre o último editorial de “O Jornal de Amarante”, no qual eu fazia um balanço positivo do primeiro ano de mandato e elogiava a postura de Armindo Abreu. Aquele homem da escrita criticava, de forma educada, o sentido geral do texto e apontava-me algumas situações, afirmando que ora dava no cravo ora dava na ferradura.
Ouviu atentamente, mas expliquei que as minhas opiniões são positivas ou não consoante a matéria. Ao contrário de outros, porventura dele próprio, as minhas posições e não se subjugam a quaisquer orientações político-partidárias ou ideológicas, quase dogmáticas, essas sim fortemente condicionadas da opinião de alguns “escribas” das nossa praça”. Ser-se livre é assim. Este é o meu conceito de liberdade de expressão da nossa cidadania. Ou se concorda ou não com isto ou aquilo, independentemente do partido A ou B, o político C ou D defender uma posição de natureza mais partidarizada. Alguns que eu considero, mas que fazem parte dos tais grupos de comprometidos sob ponto de vista partidário, já me chamaram incoerente na forma como critico ou apoio determinadas medidas deste governo ou deste executivo municipal. Se o faço é porque estou desprendido de quaisquer amarras ideológicas rígidas ou de disciplina partidária, condição que me permite analisar cada matéria e defendê-la ou contestá-la, dependendo da apreciação que dela faço. Essa é a minha natureza de cidadão livre e atento ao fervilhar da nossa sociedade.

> Primeiro ano de mandato: balanço positivo

Completou-se recentemente o primeiro aniversário deste mandato autárquico, momento aproveitado pela Câmara e pelo partido maioritário no executivo, o PS, para fazer um balanço trabalho realizado.

Questionei-me se devia também, na qualidade de director deste jornal local, fazer um balanço apreciativo do trabalho realizado pela autarquia. Confesso que hesitei antes de começar este editorial, simplesmente porque sei que qualquer opinião por mim vertida será alvo de comentários depreciativos de um lado ou de outro da barricada, consoante o tom elogioso ou crítico do trabalho desenvolvido pela edilidade liderada por Armindo Abreu. Acresce que, como jornalista, passe a imodéstia, terei porventura um olhar incisivo e imparcial sobre o que se vai passando neste concelho, tendo também em conta que conheço razoavelmente a realidade de municípios vizinhos, o que facilitará as sempre inevitáveis comparações. Feitos estes considerandos que considero enquadradores do que pretendo explanar, vou então partir para um comentário sucinto deste primeiro ano de mandato.

Assumo, sem tibiezas, que faço um balanço manifestamente positivo do trabalho realizado. E explico porquê: O presidente Armindo Abreu viveu no início deste mandato os mais difíceis dias da sua carreira política, confrontando-se com situações que puseram à prova os seus “nervos de aço”. O presidente nunca antes tivera de governar em minoria num executivo dominado por duas forças da oposição. Uma das forças - os vereadores do movimento Amar Amarante - revelou no início do mandato um mau perder, protagonizando um comportamento agressivo e provocante, exorbitando os seus direitos de oposição e enveredando por expedientes que mais não pretendiam do que provocar a confusão e causar desgaste na equipa de Armindo Abreu.

Viveram-se então momentos que não dignificaram o órgão Câmara Municipal. As discussões em tom inusitado travadas entre Ferreira Torres e o presidente ficarão para a história como uma página obscura do poder autárquico democrático em Amarante.

Ao mesmo tempo, também se sentia o desconforto do PSD, mal recomposto de uma grande derrota eleitoral. Aqui ou ali percebia-se que os sociais-democratas se mostravam permeáveis à demagogia das propostas do movimento Amar Amarante, não resistindo os laranjas à tentação de embarcar nas posições da outra força da oposição e assim criar desconforto na força que tinha ganho as eleições. Conseguia-se assim, de forma artificial, com a maioria contra natura formada pela oposição, subverter aquela que tinha sido a vontade dos amarantinos, que tinham escolhido, de forma inequívoca, o PS e Armindo Abreu para conduzir os destinos da sua terra. O que se passa em Amarante só releva o que defendo há muito: a mudança da legislação, que acabe com o poder colegial num órgão executivo como a Câmara, onde apenas devia ter assento a força que ganha as eleições, reforçando-se em contraponto os poderes fiscalizadores do órgão Assembleia Municipal.

Foram meses difíceis para Armindo Abreu. O presidente nunca vacilou, mantendo-se hirto na defesa dos seus princípios e do programa que propôs ao eleitorado. Ora sereno, ora mais crispado na defesa dos seus argumentos, mas sempre coerente, Armindo Abreu voltou a confirmar a sua veia de lutador, que tão evidente se tinha tornado no combate difícil que travou durante a campanha eleitoral. Esta é a característica que mais aprecio no presidente do executivo, independentemente de nem sempre concordar com os seus pontos de vista e a suas opções estratégicas. Armindo Abreu é um homem que assenta a sua actuação em princípios sólidos, entre os quais os da coerência, frontalidade e honestidade política, e isso revelou-se determinante para que o presidente tivesse saído da fase mais crispada do mandato mais fortalecido e confiante no futuro.

Sobretudo por isso faço uma apreciação positiva do primeiro ano do mandato, que há-de ficar como uma manifestação inequívoca de que, independentemente dos engulhos que se colocam no nosso caminho, vale a pena lutar pelos princípios em que acreditamos.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

CHEGA JARDIM!!!


A nova proposta de lei das Finanças Regionais anunciada pelo Governo da República determina uma quebra de 45 milhões de euros na transferência de verbas para a Região Autónoma da Madeira.
Este propósito do governo, que terá ainda de ser aprovado pela Assembleia da República, tem vindo a ser veementemente e de forma pouco cortês contestado pelo presidente do governo regional, Alberto João Jardim, que acusa o primeiro-ministro de estar a protagonizar um ataque sem precedentes àquela região autónoma. João Jardim, no seu estilo, já pediu a demissão do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos.
Quem não parece nada intimidado com as afirmações do governante madeirense é o primeiro-ministro, José Sócrates, que se tem mostrado irredutível na decisão tomada.
Sócrates tem razão, porquanto assenta a sua decisão num princípio de justiça e subsidiariedade, tão caro a todos os portugueses. O primeiro-ministro lembra que a Madeira apresenta um dos índices de desenvolvimento mais elevados do país, que justificam uma redução na transferência de recursos do Estado para aquela região autónoma, ao mesmo tempo que tornará possível aumentar o apoio às regiões mais pobres. O primeiro-ministro também lembra a João Jardim que a lei é igual para todos e que a nova legislação permitirá ter um maior controlo sobre o endividamento das regiões autónomas.
Finalmente, um governante deste país teve coragem de dizer a João Jardim aquilo que aquele já merecia. Neste país a lei é igual para todos e nem o senhor Jardim, por mais poderoso que seja na “sua ilha”, tem o direito de ultrapassar as orientações gerais da política traçada pelo governo da República. Sócrates afirmou que o governo da Madeira não tinha sido autorizado a contrair um empréstimo de 150 milhões de euros, mas o executivo da Jardim decidiu fazê-lo, contrariando de forma grosseira uma orientação do governo central e comprometendo o objectivo português em termos de défice público. “Basta” – disse Sócrates. Com certeza que a maioria dos portugueses se revêem nesta atitude do primeiro-ministro, que vai dando mostras de que é efectivamente um governante corajoso e reformista, ao enfrentar, nas últimas semanas, forças de pressão poderosas, como os autarcas, o presidente do governo regional madeirense e os docentes. Estes e outros lobbys parecem querer ficar à margem do esforço nacional a que quase todos estamos a ser sujeitos para modernizar o país.

> GNR SOB FOGO?

Nos últimos dias, os noticiários televisivos deram grande destaque à recentes situações em que agentes da autoridade de Matosinhos e de Gaia alvejaram viaturas, cujos ocupantes estariam, alegadamente a fugir às forças da ordem. Os disparos causaram a morte de um jovem e ferimentos noutros suspeitos. Este incidente remete-nos uma vez mais para a reflexão em torno do papel das forças de segurança face a uma criminalidade cada vez mais violenta e urbana.
Sou dos que ficam incomodados quando ouço que os polícias ficam em mais lençóis sob ponto de vista jurídico quando, no exercício legítimo da sua profissão, têm o infortúnio de atingir mortalmente um qualquer suspeito em fuga às forças da lei, por mais violento que este seja. Tenho para mim que qualquer cidadão que fuja à lei está a incorrer num gesto grave e quando este, depois de longas e perigosas perseguições policiais, ainda resiste, terá de ter consciência de que poderá ser alvo de formas mais contundentes de actuação, como terá acontecido em Matosinhos e na Maia.
Note-se que, vezes sem conta, estas situações acabam com a morte dos agentes.
O senso comum diz e eu subscrevo que, “pelo andar da carruagem”, os polícias sentir-se-ão cada vez mais inibidos em actuar em operações extremas, pois trazem no seu subconsciente que se as coisas correrem menos bem, isto é, se alvejarem mortalmente um criminoso em fuga, poderão, na pior das hipóteses, ir parar à cadeia por homicídio. A sociedade deve, sem paliativos, manifestar a sua solidariedade para com o esforço destes homens e mulheres que vestem fardas e têm a árdua e arriscada missão de defender a lei e a ordem. A sociedade não deve ser a primeira a apontar-lhes o dedo quando as coisas correm menos bem.
Este é um equilíbrio difícil. Num Estado de direito como o nosso exige-se às forças da ordem cuidados redobrados quando abordam as situações mais extremas, só recorrendo aos métodos operacionais mais duros em último recurso, procurando salvaguardar sempre os direitos inalienáveis dos suspeitos. Mas, convenhamos, haverá situações em que se rompe esse frágil equilíbrio, sobretudo quando os agentes da ordem são confrontados com suspeitos perigosos, cuja actuação delituosa põe em causa a segurança pública. Cabe aos agentes ter o “sangre frio” necessário para lidar com a situação, medindo o método mais adequada de agir, em conformidade com as normas legais de actuação das forças da ordem. Concluo, por conseguinte, que nunca como hoje a formação dos polícias é importante. Estes devem estar física e psicologicamente habilitados a lidar com situações extremas.

domingo, 8 de outubro de 2006

> DESNORTE NA ASSEMBLEIA MUNICIPAL


A última sessão da Assembleia Municipal de Amarante revelou-se a antítese do que seria suposto encarnar o protótipo de funcionamento deste órgão autárquico em Amarante.
Foi na abordagem da postura de trânsito que assiste a uma das mais confusas assembleias municipais. Em mais de 10 anos de jornalismo nunca vira nada assim. Tanta confusão, tanta desorientação, tanta falta de preparação.
A questão até nem era assim tão complexa. Tratava-se apenas de votar uma nova postura de trânsito que tinha sido aprovada pela Câmara, enquanto órgão colegial onde têm assento sete elementos: três do PS, dois do Amar Amarante e outros tantos do PSD. Pelo que percebi no decurso da famigerada assembleia municipal, muitos deputados estavam confusos, ao não perceberem como era possível votar uma matéria emanada da Câmara, cujo sentido geral era contrário à vontade do presidente da edilidade e dos seus dois vereadores. A confusão foi tal que até o presidente da mesa, Celso Freitas, homem de direito, protagonizou um momento estranho quando confessou perante o hemiciclo e o próprio presidente da Câmara que não sabia o que efectivamente se ia votar. Por momentos foi possível observar sucessivas trocas de sinalética entre a bancada que PS e os membros do executivo, espantados com a desorientação da mesa da assembleia, cujos três elementos também denotavam falta de sintonia.
Foi uma confusão perfeitamente dispensável. Este desnorte evidencia, na minha óptica, falta de acompanhamento de muitos deputados daquilo que vão produzindo as reuniões de Câmara. Se tivessem estado mais atentos, como era sua obrigação enquanto eleitos municipais, à reunião do executivo que aprovou a postura, quanto mais não seja através dos relatos dos jornais, com certeza que aquela confusão não teria ocorrido, poupando-se assim horas preciosas nas vidas de todos, que acabaram por comprometer o discernimento para a discussão de outras importantes matérias que se seguiam na ordem de trabalhos.
Ainda sobre este assunto, não percebo por que não foram realizadas reuniões preparatórias, envolvendo as lideranças dos grupos parlamentares, promovidas pelo presidente da assembleia. Teria sido uma boa oportunidade de se esclarecer cabalmente o que estava sobre a mesa da discussão, além de permitir aos líderes das forças representadas na AM analisar e acordar previamente as metodologias de discussão da matéria.
Não menos censurável, foi aquilo que se passou aquando da votação das alterações à postura de trânsito apresentadas pelo PS. O PSD e o Amar Amarante, forças que tinham imposto, de forma legítima, a sua vontade quando a matéria foi votada na Câmara, não aceitavam na Assembleia Municipal que a postura fosse alterada em algumas alíneas, por uma maioria socialista na AM, que tem rigorosamente a mesma legitimidade democrática que a maioria formada pelos dois partidos da oposição no executivo. Alegaram supostas ilegalidades, brandindo a bandeira de que a AM não podia alterar uma postura aprovada pela CM, argumento prontamente contestado pela maioria socialista, que disse, e bem, não querer abdicar das competências da Assembleia Municipal, inclusive a de alterar a matéria em apreço.
Incomodados com as alterações impostas pelo PS, representantes do PSD e Amar Amarante, na AM chamados “Amarante com Ferreira Torres”, decidiram abandonar a sala no momento da votação. Foi um gesto nada bonito, que denota incapacidade de aceitação das regras do jogo democrático, assente na representatividade que cada força tem nos diferentes órgãos do poder local amarantino, que são independentes entre si, tendo apenas em comum a legitimidade que lhes advém do voto popular.
Se do lado AFT, aquela atitude acaba por não surpreender, conhecendo o histórico de actuações caracterizado por algum fundamentalismo oposicionista, já causou maior estranheza a atitude dos eleitos do PSD. Estes costumam pautar a sua actuação com linhas mais equilibradas, próprias de um partido com responsabilidades no sistema político português, em geral, e amarantino, em particular. Ao abandonarem a votação, não fizeram jus a este princípio, alinhando numa onda iminentemente populista e demagógica, para mim meramente virtual, imaginando que aquela atitude pudesse agradar a um maior número de amarantinos partidários da abertura ao trânsito do centro da cidade.
Ainda bem que o bom senso prevaleceu e Amarante vai continuar a ter a sua mais nobre e bela praça livre de carros.